Corrida pelo ouro: a polarização política e o Oscar

Basta o sonho com a estatueta dourada para que a batalha tenha início: de um lado, os partidários de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho; do outro, os que se esforçam para diminuir o mesmo filme, em claro gesto político – neste caso, o da chamada direita.

Resta dizer, portanto, que Mendonça Filho e seus entusiastas estão à esquerda nesse painel ao qual a indústria brasileira de cinema foi lançada. A corrida pela pré-indicação ao Oscar de filme estrangeiro – situação ainda longe da estatueta – foi o suficiente para inflar posições políticas. A arte do cinema, coitada, importa menos.

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aquarius

Quando Lula, o Filho do Brasil foi escolhido para representar o país na corrida do Oscar, em 2010, foi a vez da direita gritar contra a escolha: seria uma posição política a mover a indicação, uma maneira de colocar o então presidente – no ano que se preparava para sair do governo e fazer a sucessora – em evidência no tapete vermelho.

Mendonça Filho já havia sido escolhido para representar o país: seu O Som ao Redor foi elogiado em terras estrangeiras, ficou na lista dos dez melhores do New York Times, era, ao olhar dos votantes, o mais forte concorrente. Como Lula, naufragou.

A cada ano retorna a visão dos “especialistas”, nas comissões formadas para escolher os pré-indicados: entender o que passa pela cabeça dos “velhinhos da Academia” – como se fosse fácil rotular um grupo de votantes. A categoria de filme estrangeiro é a mais difícil de prever – e já indicou, em anos anteriores, filmes que não passariam perto do “gosto” desses “velhinhos”, como Dente Canino e A Fita Branca.

O filme da vez, a representar o Brasil, é Pequeno Segredo, de David Schürmann. Ninguém ou pouca gente viu. Desbancou Aquarius, o grande filme de Mendonça Filho. A polarização, de novo, está dada – e, em sentido oposto, também estaria: em seu lugar, Aquarius certamente geraria gritos da mesma direita que antes atacou Lula.

lula filho do brasil

A discussão resume-se sempre à política, não à arte do cinema. São filmes dignos ou não de representar um país à corrida a um prêmio popular mundo afora? Qual, hoje, a relevância do Oscar? Não é novidade: o Oscar, há tempos, deixou de ser sinônimo de qualidade. É, antes, um passaporte para uma boa carreira comercial.

Há quem alegue que, mais do que um filme, uma nação inteira será colocada aos olhos do mundo. O Brasil esteve este ano em Cannes e já venceu o festival, há décadas, com o extraordinário O Pagador de Promessas. Também ganhou Berlim e Veneza. Ganhar um Oscar tornou-se obsessão nacional. Será comemorado com desfile em carro aberto.

Na festa, os “estrangeiros” terminam invariavelmente como penetras. Os cliques, quase em sua totalidade, estão destinados aos suspeitos de sempre, às estrelas. Não estranha o rosto de curiosidade dessas mesmas estrelas quando os “estrangeiros” são chamados ao palco. Convertem-se em produtos exóticos, de espaço delimitado.

E, no Brasil, os lados de uma disputa política não cansam de bater cabeça, a expor ainda mais o clima já dividido de um país pós-impeachment. A obsessão pela estatueta dá as caras, vai além de direita e esquerda, tudo para figurar na noite do Oscar, em festa abarrotada de pessoas bonitas, vestidos caros e forte inclinação à indústria.

Foto 1: Aquarius
Foto 2: Lula, o Filho do Brasil

Veja também:
Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
Três visões sobre o Oscar (e sobre o mundo do cinema)

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