Ausência de Malícia, de Sydney Pollack

O espectador acredita no pior quando se trata da personagem de Paul Newman em Ausência de Malícia. A certa altura, é evidente que ela é vítima, não a vilã dessa história sobre jornalismo e poder. Em cena, o ator é sinistro, distante, sabe mentir.

É capaz de manipular o jornalismo e a Justiça. A cada novo passo, o homem de Newman deixa claro que ninguém sabe quase nada sobre ninguém – e, por mais irônico que pareça, a jornalista de Sally Field é a única que deixa saber mais.

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Sobre ela, seu chefe usa adjetivos fortes. Diz que é brilhante, que pode assumir uma editoria nesse jornal de Miami, escapando assim do jornalismo feito na rua, do calor das histórias que vão de bandidos a vítimas como Michael Gallagher (Newman).

O problema é que ela esbarra justamente no homem honesto: aos poucos, ele deixa de ser apenas história, e ela deixa de ser apenas a jornalista a cobrir o caso. Gallagher tem problemas passados: é filho de um velho mafioso, sobrinho de outro. Curiosamente, seguiu o caminho contrário ao dos familiares. Tenta trabalhar de maneira honesta. Sua vida muda quando se torna o foco de uma matéria de Megan (Field).

O texto – apurado nos corredores da Justiça, nos quais as fontes apontam apenas ao que convém – diz que Michael é investigado pela morte de um sindicalista. Ao ver a matéria, o homem toma a medida esperada: vai ao jornal confrontar a repórter.

Deseja saber quem deu tal informação. Em respeito às fontes, ela nega-se a dizer. O caso desenrola-se à medida que ela, entre o prazer da companhia dele e o vício no trabalho, escreve mais e mais. Outra fonte, possível amante de Gallagher, confessa que ele estava em sua companhia no dia da morte do sindicalista.

A situação agrava-se: a mesma moça (Melinda Dillon) suicida-se e o acusado de assassinato é tomado pela fúria. Ao descobrir que a promotoria estava por trás da história do jornal, a personagem de Newman volta-se contra todos – e acerta Megan.

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A força do roteiro de Kurt Luedtke deve-se ao privilégio dado às situações, às voltas, não aos possíveis vilões. Todos passam a vítimas – ou peças – de um sistema em que a manipulação tornou-se regra. A certa altura, pouco importa quem matou o sindicalista.

O filme não é sobre uma investigação, mas sobre erros e giros em falso. Field não combina com a jornalista combativa. Não leva jeito. Newman, por outro lado, explode da maneira certa e, na melhor sequência do filme, chega a agredir a mulher.

O diretor Sydney Pollack é seguro, não tem pressa. Dá vida a um herói estranho, confiante, bom em expressões, e a uma jornalista que peca ao falar demais, a derramar o tom fraquejado típico de Field, o que a leva a quebrar um código sagrado entre gente de sua profissão: envolve-se com a história a ponto de revelar uma fonte.

Para Gallagher, a relação com Megan talvez não ultrapasse a atração física. Antes usado, ele aproveita as mesmas armas à disposição: joga um contra o outro enquanto volta a ganhar espaço no jornal, e não mais com os adjetivos de um culpado.

(Absence of Malice, Sydney Pollack, 1981)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Fúria do Destino, de Martin Ritt

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