45 Anos, de Andrew Haigh

Com seu cão, ainda pela manhã, Kate Mercer (Charlotte Rampling) retorna para casa, conversa com um rapaz que passa pela rua, depois prepara o café para o marido. A impressão é que sua vida, nos últimos 45 anos, não foi tão diferente dessa abertura.

Nos dias seguintes, quando ela e o marido estão às portas da comemoração de mais de quatro décadas de união, uma notícia muda tudo: o corpo de uma antiga companheira dele, com quem viveu antes de conhecer Kate, é encontrado.

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A vida toma outro rumo, ou quase: Kate tenta manter as coisas como sempre foram, mesmo que seja difícil. Vê o marido mudar, reconhece o sentimento dele pela outra, cujo corpo ficou congelado após um acidente nas montanhas suíças.

O tempo não conservou apenas o cadáver, descobrirá a protagonista: talvez seu marido, Geoff (Tom Courtenay), não tenha esquecido aquela mulher. Outras revelações surgirão, ao passo que a personagem de Rampling rompe a normalidade.

O filme de Andrew Haigh é sobre a dificuldade de aceitar o sentimento do outro. Um pouco sobre as ciladas da natureza, do gelo que derrete com a mudança do mundo, do marido que se esconde em aparente figura amável e ranzinza.

Por outro lado, nada fez para quebrar a confiança da resistente Kate: esta não é uma história de traição, mas de descoberta. E Haigh sabe como retirar do talentoso casal as revelações necessárias em pequenos gestos, ou a dúvida que se vê em Geoff.

O que ele pensa e deseja? Por que volta a fumar? As perguntas atingem Kate, o espectador, e colocam novas camadas nos espaços aparentemente vazios, na natureza aparentemente imutável agora sob a ação do pequeno tempo, dos dias contados na tela, à beira de uma festa que pode ser apenas a celebração de aparências.

O casal deve parecer feliz nessa festa. Nem das lágrimas, talvez, pode-se esperar sinceridade. Não se sabe tudo: a posição do público é a mesma de Kate, aos poucos corroída pela dor, pela constatação da imobilidade à qual foi levada anos a fio.

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No campo do amor, diz Haigh, a partir de uma história que adaptou de David Constantine, sobram doses de egoísmo, como se fosse possível ter o outro por inteiro, ou conhecê-lo por completo. Sobra mais dúvida.

A necessidade de saber mais a conduz a um cômodo esquecido da casa, à história dele antes de sua chegada, a novas revelações que fazem doer. Saber mais, aqui, sempre causa dor. Todos têm histórias anteriores, inclusive o pacato Geoff. Kate, não à toa, sente-se um acidente: torna-se, em sentimentos, em sua nova visão sobre os passados 45 anos, a substituta, a encerrar a dor da morte da primeira, a escolhida.

O filme de Haigh é mais dramático do que parece. O diretor acerta em não exagerar, em cortar no instante da explosão, ao fim, quando a protagonista finalmente poderia dizer algo, ou negar a celebração à sua volta, a festa montada para exaltar a vida a dois.

O drama avança ao corte: não permite que o espectador receba dela o que tanto esperava, com a atitude que pode colocar tudo a perder. Ela terá de fazer uma escolha: aceitar esses 45 anos como sempre foram ou abandonar o papel da mulher ponderada.

(45 Years, Andrew Haigh, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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