O falso documentário de Peter Watkins

O contraste é claro e mesmo estranho ao longo de Culloden: os homens do século 18, durante a batalha que dá título ao filme, fazem seus relatos à câmera, como em um documentário. Não haveria motivos para duvidar de sua autenticidade caso não fosse ambientado no século 18, época na qual o cinema sequer havia sido criado.

O autor desse trabalho é Peter Watkins. Seu falso documentário tem de original, como ponto de partido, o fato de negar sua falsidade: o passado vive sob a influência de uma linguagem moderna e realista. Suas sequências são tão fortes e verdadeiras, seus homens tão sofridos e penetrados na causa, que fica difícil pensar em encenação.

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Culloden, primeiro longa-metragem de Watkins, é de 1964. A partir de um conflito ocorrido 200 anos antes, o autor mostra outro tipo de guerra, diferente dos ataques atômicos com bombas dos quais é contemporâneo, na Guerra Fria então em curso.

No entanto, algo não mudou: trata-se de uma celebração fria do mal da guerra, da carnificina, da exposição de homens que resumem o espírito da época, entre bandas que marcham em campo aberto e jovens combatentes cobertos por sangue. Números e dados são levados ao espectador. Soldados, líderes, gente do povo – todos dão suas versões.

O realismo é o que mais intriga. A mesma estética seria levada ao filme seguinte de Watkins, O Jogo da Guerra, que lhe valeu o Oscar de melhor documentário – mesmo encenando um conflito que nunca ocorreu, a possibilidade de o Reino Unido ser atacado, durante a Guerra Fria, pela então inimiga União Soviética.

A obra é apavorante. O início não deixa ver qualquer rastro de falsidade: o que é colocado à câmera, por pessoas verdadeiras, são momentos de medo, e não estranha se alguém convidado a opinar tenha dito o que pensava, tamanha a incerteza que se vivia.

O clima de um mundo bipolar está ali, nas pessoas comuns, como estava também nos rostos dos homens prestes a serem mortos nos campos de Culloden. Nos dois casos, Watkins denuncia o horror da guerra – a primeira, de outro século, como um momento que existiu; a segunda como um conflito imaginado, ainda assim mais próximo.

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A mensagem de ambos os filmes parece ser a mesma: separados por séculos, os conflitos produziram resultados semelhantes. Isso, pelo menos, à luz da linguagem cinematográfica – o que nada tem a ver com números e o alcance das mortes.

O cinema encenado de Watkins, na busca pelo documental, reproduz seres aterrorizados, em pleno combate, em luta para sobreviver. Algo irracional. Para compor O Jogo da Guerra, o diretor baseou-se em tragédias como as de Hiroshima e Nagasaki.

Homens mobilizam-se, no início, para preparar a sociedade para a guerra, mesmo que à força. Pessoas são retiradas de suas casas e outras são obrigadas a abrigá-las. O Reino Unido, sob a possibilidade do ataque soviético, desloca os moradores das cidades que figuram como alvos do inimigo. Alguns locais são atacados, diversas pessoas morrem.

A carnificina, nos dois filmes, não é gratuita. Watkins tem como trunfo a própria estrutura de seu cinema: ao sair em busca de um documentário, sem interpretações típicas aos filmes de ficção, preferindo o relato, a distância e a narração, o cineasta produz no espectador um estranho efeito de aceitação.

Ao mesmo tempo em que o ponto de partida, por natureza, revela-se falso, os resultados são tão verdadeiros que fica difícil duvidar da violência, das explosões, do relato triste dos médicos, das pessoas com o corpo queimado e sujo de terra. A expressão de uma mulher, ou de um garoto, é o que há de mais impactante, amostra fiel do horror.

(Idem, Peter Watkins, 1964)
(The War Game, Peter Watkins, 1965)

Notas:
Culloden: ★★★★☆
O Jogo da Guerra: ★★★★★

Veja também:
Os documentários indicados ao Oscar 2016

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