Astrágalo, de Brigitte Sy

O preto e branco de Astrágalo, de Brigitte Sy, não fornece um passado perdido. Quer dizer, a impressão do espectador é de estar próximo a algo verdadeiro, um universo real, possível, de bandidos sem glamour nem frases de efeito.

O mérito, portanto, é da direção, também da fotografia de Frédéric Serve: suas personagens mundanas podem ser tocadas, simples – e às vezes propositalmente falsas – como são. O roteiro não fornece mais que um guia para se chegar à sua beleza.

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Começa com acidente, com sofrimento: ao pular o muro da prisão, a protagonista machuca o pé. Ela quebra o osso astrágalo, o que a fará mancar por todo o filme – e para o resto da vida. E, enquanto tenta fugir, recebe ajuda de outro criminoso que passava pelo local e a leva dali.

Nasce um relacionamento entre ambos. Ela, Albertine (Leïla Bekhti), vê-se ligada a ele, Julien (Reda Kateb): a história de ambos se torna questão de honra. Por tê-la salvado, será ele o único a ter seu amor para sempre, ou algo próximo a isso.

No fundo de tantos acidentes, crimes, prostituição e bebedeiras, repousa uma história de sentimentos que as personagens não se importam em revelar. O que Albertine não aventa facilmente são as palavras escritas, os trechos que carrega em seu caderno. A certa altura, quando outra mulher lê uma dessas passagens aos convidados de uma festa, a protagonista revolta-se entre todos. O ambiente é sempre instável.

Ao colocar uma peruca loura para circular pela rua, para se prostituir, Albertine assume então uma face livremente falsa. Apenas seus clientes mais ingênuos acreditarão naquela mescla, na argelina de cabelos claros.

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É, vale lembrar, um filme feminino, que não julga as mulheres. Antes de Julien, a moça teve uma amante à qual dedicou parte da vida, com quem praticou o crime que a levou à cadeia, companheira que volta a encontrar quando seu parceiro é preso.

A confissão de que tem outro é natural. Há sempre entendimento. Julien nunca penetra por inteiro esse meio veraz. A amante (Esther Garrel) aproxima-se da protagonista e, sem esforço, comprova sua disposição à total entrega.

Astrágalo é baseado no livro da própria Albertine Sarrazin. Sob a condução de Sy, o espectador logo percebe que a liberdade da moça não vai longe. A ideia de fracasso é constante, balada breve de amores à base de banditismo apaixonado.

(L’astragale, Brigitte Sy, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Um Belo Verão, de Catherine Corsini

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