Um Dia Perfeito, de Fernando León de Aranoa

Os dois homens experientes de Um Dia Perfeito ainda conseguem se surpreender durante algumas horas com os companheiros de trabalho. Eles fazem parte de uma equipe de trabalho humanitário, em alguma região em guerra, nos Bálcãs.

Ambos, interpretados por Benicio Del Toro e Tim Robbins, resgatam cadáveres, negociam com homens armados, deparam-se com minas terrestres, mas se surpreendem com a frieza entre os vivos, ou com o reflexo das diferenças culturais.

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Pelo caminho da personagem de Del Toro, Mambrú, passa um menino em busca de uma bola. O desejo do garoto chama sua atenção: é um resquício de humanidade e inocência em uma região em guerra, na qual falta até mesmo água.

No início, Mambrú tenta retirar um cadáver lançado em um poço. Moradores rodeiam o local, esperam a ação; a corda não aguenta o peso do corpo, rompe, e toda a ação seguinte – nesse “dia perfeito” – envolve a reposição desse material.

E outra corda não será fornecida devido a questões sem importância ao olhar do outro agente humanitário, chamado apenas de B (Robbins). Em determinado momento, um comerciante se nega a vender o produto porque acredita que não se deve mexer no cadáver; em outro, um soldado evita remover a corda que serve para manter sua bandeira hasteada. Retirá-la, diz ele, pode dar início a um conflito.

Inclinado à graça constante, para quebrar o clima desagradável, B entende-se com Mambrú. São calejados. O que vivem, no fundo, é uma situação como muitas, aqui tratada com proximidade e emoção pelo diretor Fernando León de Aranoa.

Se não existem “dias perfeitos”, muito menos serão vistos na região em que o filme é ambientado. A ironia não se restringe ao título: mesmo com os supostos parceiros será difícil conseguir avanços. Eles enfrentam protocolos, regras nem sempre justas.

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Lidam com um menino órfão, com a nova agente entre eles (Mélanie Thierry) e a ex-namorada de Mambrú (Olga Kurylenko), no mesmo trabalho. Ela viajou ao local para avaliar a possibilidade de encerrar a missão. A moça afirma que a paz está próxima.

Por outro lado, a viagem do grupo é interrompida por vacas mortas, deixadas na estrada. Os animais sinalizam a presença de bombas. Essa guerra vive do horror silencioso e, é verdade, cotidiano, com uma emoção pouco a pouco crescente, feita da exploração do tempo. Não há qualquer explosão ou conflito armado.

O que se vê – em paredes perfuradas, casas destruídas, vacas vivas usadas como guias em áreas de minas terrestres – é o que se produz para além do cinema: a guerra nunca termina como espetáculo, ou como um drama de perdas constantes.

É fria, de estradas fechadas, de homens enfileirados, distantes, sabe-se lá para qual finalidade. Quando B diz que não gostaria de estar entre eles, o espectador compreende que o conflito está longe da paz sonhada pela ex-namorada de seu companheiro.

Na antiga casa em que vivia o garoto órfão, os móveis, as bagagens que nunca foram colocadas no carro e a antiga fotografia contam uma história. Mambrú observa o local tentando desvendá-lo. Está ali em busca de uma corda e uma bola. Seu dia de trabalho, como muitos outros, beira o insuportável.

(A Perfect Day, Fernando León de Aranoa, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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