Um Misterioso Assassinato em Manhattan, de Woody Allen

O contraponto à imaginação de Carol é a dúvida de Larry: enquanto ela acredita que o vizinho tenha matado a própria mulher, ele insiste que isso não passa de delírio. O suposto crime surge como possibilidade de mudança à vida do casal.

Como em Janela Indiscreta, mas sem a janela, e no campo da comédia. E com um casal com anos de vida a dois, em um mesmo apartamento, que esbarra em seu vizinho pelo corredor do prédio. Ela, falante, quer se aproximar do estranho, ao contrário dele, retraído e engraçado, que luta para seguir em sua vida pacata.

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um misterioso assassinato em manhattan

Em Um Misterioso Assassinato em Manhattan, o homem da relação é vivido pelo próprio diretor, Woody Allen, perfeito como alguém em dúvida, que esnoba as possíveis aventuras da vida, ou que simplesmente tem medo.

O comodismo da personagem transmite um pouco do próprio Allen, limitado a certos ambientes, criações, histórias de pessoas reais em seus apartamentos frios de Manhattan. Por outro lado, a trama empurra a obra sempre à ficção: é a história de um assassinato que talvez tenha ocorrido, ou apenas a insistência em ver em excesso.

Volta-se, assim, a Janela Indiscreta, à dúvida que paira por algum tempo. Ao observar os vizinhos pela janela, a personagem de James Stewart começa, aos poucos, a dar “vida” a cada uma delas, a lhes conferir “contornos”. A tal história.

No filme de Allen, tal necessidade cabe à personagem de Diane Keaton, sua parceria em trabalhos anteriores e marcantes. Como Carol, ela encontra no crime do vizinho a possibilidade de mudar a rotina: é sua fonte de felicidade, a grande descoberta.

Larry demora a acreditar nela. Até então, a mulher já invadiu o apartamento do assassino, já o seguiu pelas ruas de Nova York e talvez já tenha cruzado, em mente, todas as possibilidades que o teriam levado a matar a própria mulher – com pitadas de cinema, claro, o que remete a outro clássico: Pacto de Sangue, de Billy Wilder.

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A certa altura, eles vão ao cinema assistir à obra-prima noir da década de 40. É sobre uma mulher esperta que se une a um corretor de seguros para matar o próprio marido. Nos crimes à tona, há sempre dinheiro e amantes, o que não escapa à obra de Allen.

À medida que avança, fica ainda melhor: o diretor acrescenta passagens que beiram o surreal – o que só aumenta a dúvida sobre o suposto delírio, o “ver em excesso” – e coloca outras personagens marcantes, como o amigo cheio de imaginação interpretado por Alan Alda e a escritora e cliente de Larry, vivida por Anjelica Huston.

Na melhor sequência do filme, todos conversam sobre o que teria levado o vizinho a matar a mulher. À exceção da própria Carol, todos se aproximam cada vez mais. É como se a história não mais lhe pertencesse. Começa a tomar novas dimensões.

O que, não por acaso, leva à arquitetura de uma investigação que esbarra no próprio cinema: inclui testes de atores, câmeras, sala de edição.

À frente, nova referência, de novo a uma grande obra, A Dama de Shanghai, de Orson Welles, com a reprodução da clássica cena da sala de espelhos. O cinema é reflexo, não realidade bruta. É “ver em excesso”, com crimes, aventuras e boas gargalhadas.

(Manhattan Murder Mystery, Woody Allen, 1993)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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