Tiros na Broadway, de Woody Allen

As linhas finais poderiam ser: “Eu não sou um artista”. Mas, em Tiros na Broadway, Woody Allen decide seguir em frente, apenas mais um pouco, e insere uma pergunta: “Quer se casar comigo?”. A moça aceita.

Quem pergunta é o artista, ou aquele que acreditou ser um, o escritor e diretor teatral David Shayne (John Cusack). Suas primeiras palavras, nas linhas iniciais, remontam sua crença, depois derrubada: “Eu sou um artista”. Mais tarde, descobre o oposto.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

tiros na broadway

As afirmações mostram o quanto se leva a arte a sério. No fundo, é disso que fala o filme de Allen: pessoas que vivem mergulhadas em outra realidade, embriagadas pelo gigantismo do universo em que quase tudo vale, no qual se sentem reis, deuses.

O mundo real é diferente. David deixa o teatro e retorna a ele – ao casamento com a mulher simples, à sua pequena cidade – porque descobre que a vida é mais importante que a arte. Outra personagem, o mafioso vivido por Chazz Palminteri, acredita que a arte é mais importante que a vida – e, não por acaso, termina morto.

Suposto homem das artes, David encontra sua saída no lado mundano, nas coisas simples, à medida que se aproxima do mafioso Cheech (Palminteri). Para ter sua peça produzida, David precisa aceitar no elenco uma atriz sem qualquer qualidade, Olive (Jennifer Tilly), companheira de um poderoso chefe do crime.

É o universo dos anos 20, das proibições, bebidas escondidas em ternos caros, óleo sobre o cabelo e rajadas de metralhadora que resultam da guerra entre gangues.

De voz indefinível, com dificuldade para decorar falas, Olive coloca tudo a perder. Ela vai aos ensaios na companhia de Cheech, seu guarda-costas. A cada pequena discussão, o capanga encontra motivos para se intrometer, dar opiniões sobre a peça de David, as quais se mostram, veja só, proveitosas. Aos poucos, torna-se coautor.

Aos poucos, David invade o universo de Cheech: o meio em que as coisas se resolvem à base da violência, o mundo verdadeiro do qual o autor acreditava fazer parte. Allen, com ambos, explora o dilema sobre arte e vida, questiona qual é mais importante.

tiros na broadway

No fundo, David é fraco, é humano. O capanga e matador é alguém frio, mas cujo desfecho cede às falas, ou ao jeito, de um ator. Os lados invertem-se: David precisa da vida comum para sobreviver; seus instintos não o permitem que vá até o fim, ou que morra pela arte, ou que – como Cheech – consiga gestos teatrais na despedida.

Justamente por ser livre e verdadeiro, Cheech é quem deverá terminar morto – fiel à sua arte, à sua vida. O verdadeiro artista produz sua própria moral, diz o filme.

Outras personagens têm destaque. Entre elas, a de Dianne Wiest, a diva Helen Sinclair. À beira da escada, com o cigarro na boca, é como a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses. Tem necessidade de grandeza, como tinham outras personagens do cinema levadas aos palcos, a exemplo do Jeffrey Cordova de A Roda da Fortuna.

Sobretudo, fornece a essência da distância, onde repousa o mito, a irrealidade, e também, não raro, conduz à afetação e aos excessos, àquilo que enjoa com facilidade.

Tiros na Broadway serve-se de estereótipos, com a leveza de Allen para mergulhar nos piores tipos, o que certamente inclui o pequeno escritor. O cineasta escapa ao encerramento esperado, ao “fecho perfeito”, ao incluir o pedido de casamento. Ação simples se comparada às afirmações do artista, cheio de certezas.

(Bullets Over Broadway, Woody Allen, 1994)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
13 grandes filmes sobre o teatro

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s