Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

O pequeno Alvy Singer está paralisado. Seu problema atingiria outras personagens de Woody Allen, em filmes posteriores: o universo está se expandindo, o mundo vai acabar e talvez não valha a pena seguir vivendo. À observação do garoto, ao lado da mãe inconformada, o médico tem a resposta certeira: o jeito, então, é aproveitar a vida.

Alvy Singer é Woody Allen. É mais que uma relação entre criador e personagem. Qualquer um que saiba o mínimo sobre Allen reconhece logo seu pessimismo, sua desesperança em relação à espécie humana: o garoto travado tem, em sua infantilidade, em jeito estreito de encarar a vida, o reflexo do criador adulto.

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Sem parecer piegas, ao fim de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa o diretor oferece o remédio ao amargor: enquanto assiste aos ensaios de sua primeira peça, Alvy vê seu antigo relacionamento dar certo, ao contrário do que ocorreu na “vida real”. A ficção permite tudo (ou quase), incluindo a felicidade do casal protagonista.

Ao longo do filme, em pequenas situações cômicas, a personagem faz a alegria do espectador com digressões e mau humor: por que viver em uma cidade, não em outra; por que não entrar na sala para assistir o filme de Ingmar Bergman que começou há dois minutos; por que se incomodar tanto com a presença de supostos intelectuais.

Enquanto se assiste à vida de Alvy Singer – e aqui tudo leva a ela –, Annie Hall (Diane Keaton) impõe-se. Apesar do título original, o filme não é necessariamente sobre ela. É sobre ele. A personagem feminina aponta aos feixes de irracionalidade do protagonista: representa os “ovos” que ele precisa empunhar para crer ser uma “galinha”.

É necessário explicar: trata-se da piada que vem à tona na cena final, quando Allen (ou Alvy) despede-se de Keaton (ou Annie) em uma esquina qualquer de Nova York. Segundo ele, pessoas apaixonadas, em relacionamentos, são como loucos com ovos nas mãos. Podem, dessa forma, acreditar em um universo paralelo, em galos e galinhas.

Todos os apaixonados seriam um pouco assim, como Alvy. Não enxergam. Sofrem enquanto vagam solitários, desesperados. Na busca por explicação, a personagem questiona pessoas pela rua, qualquer uma, sobre o que fazer em seguida.

É importante a opinião de terceiros, como é o caso do casal com a receita da felicidade: ela diz não ter qualquer ambição, revela ser uma pessoa vazia; ele diz o mesmo. O problema, diz Allen, é pensar muito, acreditar na expansão do universo.

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Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é o trabalho mais premiado e celebrado do cineasta. Representa uma ruptura com seus filmes anteriores, flertes com o pastelão, com piadas de um universo nitidamente irreal, referências que vão da literatura russa à distópica.

O passo dado por Allen é ambicioso, ao cravar os pés na realidade sem perder a visão do absurdo, ao romper a barreira que separa o criador de seu público: várias vezes ele volta-se à tela, fala à câmera, clama entendimento sobre a própria vida. Em outros momentos, assiste ao próprio passado, às intermináveis brigas entre pai e mãe.

O momento em que Alvy conhece Annie é especial. Jogam tênis em uma estufa em Nova York, encapsulados pela modernidade, na frieza da metrópole, longe do sol excessivo de Los Angeles, tão repelido por Allen.

Ao deixarem a estufa, ela puxa conversa. Ele oferece carona, mas não tem carro; ela tem carro, mas age como se não tivesse. Encaminhados à união ideal, quem sabe, enquanto pensam em excesso, claro, como toda personagem interessante de Allen. Falam sobre qualquer coisa para não se renderem ao silêncio.

É um filme apaixonado e, à contramão, tomado pela racionalidade, pelo homem que não consegue escapar à sombra da mulher que ama, ao mesmo tempo obrigado a reconhecer seus “ovos”. Alvy é massacrado pela rotina e dependente dela – o que inclui o jeito meigo e inesquecível da companheira Annie Hall, ou Diane Keaton.

(Annie Hall, Woody Allen, 1977)

Nota: ★★★★★

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