Memórias, de Woody Allen

O diretor de cinema interpretado por Woody Allen ouve as mais curiosas observações de seus fãs. Por qualquer lugar que passe, as pessoas cruzam seu caminho, invadem “sua” cena, como em um sonho, o que logo remete a Oito e Meio, de Fellini.

Essas personagens secundárias, em Memórias, são falsas mas amáveis: são, talvez, criações do próprio diretor, feitas para amá-lo, para que se sinta bem em seu círculo – ainda que termine só, ao encontro da tela branca após o fim da projeção.

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Tudo não passa de um filme em Memórias. E, por isso, segundo Allen, talvez não se deva levar a sério. Tudo se resume a seus desejos, a suas buscas, à sua forma de encarar a vida como sonho, como fez Fellini em sua obra-prima.

Allen não deixa de ser como sempre foi, o comediante de piadas engraçadas, de tiradas rápidas, com seu jeito único. Não quer ser Fellini, ainda que adote a estrutura de sonho, em preto e branco, do cineasta italiano. Começa sufocado no interior de um trem, e não em um engarrafamento, como no filme de 1963. Como o artista de Marcello Mastroianni, sua personagem deseja escapar e não consegue.

Sandy Bates (Allen) faz comédia, mas deseja ser levado a sério. Mais do que a Fellini, a obra remete a seu próprio diretor: depois de comédias como O Dorminhoco e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, ele teve de encarar o drama e realizou Interiores.

É algo que ronda a cabeça dos artistas: fazer uma obra “importante”, para ser lembrada, algo “socialmente relevante” – como se comédia alguma fosse capaz de tanto. E essa trajetória não pode ser contada de outra forma senão como comédia.

Nesse sentido, Allen é fiel às origens, ou mesmo à sua fama: como Fellini, ele reveste-se de farsa para abordar a cegueira dos artistas. Faz pensar em outro filme, Contrastes Humanos, de Preston Sturges, no qual um diretor de cinema deseja fazer algo importante e se torna andarilho, descobrindo a vida real.

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Esse artista sofre pressões: os produtores acreditam que não é mais o mesmo, e todos falam sobre ele, pedem-lhe algo. Como todo artista “sério”, ele precisa saber o sentido da vida – o que ninguém, como o próprio, parece ter a resposta.

A certa altura, questionará alienígenas sobre o tal sentido da vida, o que apenas reforça sua confusão. Não há resposta para a crise do cineasta, nem ao sentido da vida. Se para Fellini o fim leva à celebração circense – todos de mãos dados em um picadeiro –, para Allen a vida (a arte) termina na sala de cinema, na tela branca.

E restam amores. Bates envolve-se com duas mulheres, vividas pela inglesa Charlotte Rampling e pela francesa Marie-Christine Barrault. Essas damas estrangeiras levam ao território incompreendido por Bates: com elas, está sempre um pouco deslocado.

Ao fim, quando se encerra o filme dentro do filme, todos conversam após a projeção. Estão entregues após a farsa da tela, depois de tanta interpretação. O diretor continua por ali, vagando, talvez para não escapar. Prefere a mágica da tela branca.

(Stardust Memories, Woody Allen, 1980)

Nota: ★★★☆☆

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