Maridos e Esposas, de Woody Allen

O anúncio da separação de um casal dá vez a todos os conflitos seguintes em Maridos e Esposas, de Woody Allen. Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis) mostram tranquilidade ao anunciarem o fim do relacionamento. Do outro lado, Gabe (Allen) e Judy (Mia Farrow) preferem não acreditar no aviso e ficam apreensivos.

As personagens embarcam em uma aventura após esse anúncio de separação: todos, de repente, revelam-se emocionalmente instáveis, e todos têm suas fugas, outros parceiros – ou possíveis parceiros – para encontrarem novo começo.

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Um jogo de peças fora do lugar, o que não impede, depois, que se volte ao mesmo ponto. Jack encontra logo a companhia de uma mulher mais jovem, bela, atlética e fútil. Confessa se sentir mais jovem, mais magro. Sua vida muda, como também a da ex, Sally, que passa a ser cortejada pelo belo Michael (Liam Neeson).

O homem trabalha com Judy, a amiga que serve de ponte ao relacionamento de ambos. Se antes Sally sofria com a distância de Jack, depois passa a viver bem seus novos tempos de solteira: supera a perda e trata de trazer Michael para sua cama.

Do outro lado, a situação não é muito diferente no terreno de Gabe e Judy: enquanto ele deixa-se levar pela beleza e inteligência de uma jovem aluna (Juliette Lewis), ela não esconde atração pelo mesmo Michael – pois o empenho em entregá-lo à amiga separada, ao que parece, nada mais é do que o desejo de estar com o mesmo homem.

Por isso, o choque de Judy, ao saber da separação dos amigos, tenha talvez sua explicação: os outros tomaram a atitude que desejava tomar e não conseguiu.

A relação com Gabe está estacionada. Toda vez em que surge a oportunidade de fazerem sexo, o diálogo irrompe o espaço e a vida de ambos, como se sempre houvesse um retorno à palavra, então à paralisia. Procuram, depois, a aventura.

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Ao contrário do filme seguinte de Allen, Um Misterioso Assassinato em Manhattan, a vida aqui não almeja imitar a arte. O clima é mais realista, não há muito espaço às proezas cômicas de Allen – ao qual resta o melancólico encerramento.

O filme faz do espectador o intruso. A fotografia de Carlo Di Palma leva à câmera trepidante, que se desloca rapidamente de um ponto a outro, com o uso do zoom. Em entrevista a Eric Lax, Allen confessa que queria um filme feio. “Queria que fosse um filme desagradável de assistir.”

Fica entre seus mais tristes, talvez pelo registro à beira do real – o que as entrevistas ao longo da obra, com um filme dentro de outro, colaboram ao resultado. As personagens confessam suas voltas, suas escapadas, a inclinação que tem início com a separação de Jack e Sally e se fecha com outros rompimentos.

O que os adultos de Allen encontram é a cegueira da aventura, ou a tentativa de aceitar a frieza da vida a dois, do casamento, das coisas que simplesmente se ajustam, mas não se resolvem. Filme verdadeiro, feito em pedaços, feio como a vida comum.

(Husbands and Wives, Woody Allen, 1992)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
As Duas Inglesas e o Amor, de François Truffaut

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