Crimes e Pecados, de Woody Allen

Dois homens, duas histórias. Em um daqueles instantes reservados ao acaso, um fala da realidade, o outro da ficção. Um evoca o caos da vida, o outro tenta interpretar isso segundo a arte – pois, na literatura ou no cinema, o assassino não sai impune ao fim.

Esse encontro é o desfecho de Crimes e Pecados, um dos filmes mais completos de Woody Allen, ao lado de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. O elenco funciona à perfeição, além da direção segura e sombras às vezes em excesso, na parceria com o diretor de fotografia Sven Nykvist, colaborador de Ingmar Bergman.

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crimes e pecados

O fato de não se ver tudo indica que não se trata apenas de algo escuro, às sombras, mas também de um problema de visão. Não por acaso, o protagonista é um oftalmologista.

Na escuridão, Judah Rosenthal (Martin Landau) fala com seus pacientes, olha em seus olhos, vai fundo na natureza humana. Por outro lado, nada mais há, ali, do que matéria, e Allen chega a lançar um ponto de luz, na parede, em meio à escuridão.

As questões existenciais ganham detalhes fílmicos, nas belas imagens que Allen utiliza para representar as dúvidas desse homem, tal como as dúvidas de sua personagem, de peso semelhante, chamada Cliff Stern.

O filme é sobre dúvida: Judah, em seu caminhar, é atingido por perguntas, o que envolve matar ou não sua amante. Ele vive o comodismo de seu tempo: quer se divertir, ter outra mulher, contar segredos a ela – o suficiente para fazer com que seja ameaçado.

A dama (Anjelica Huston) cobra o preço: quer tudo para si, não mais ser a coadjuvante. Ameaça dar detalhes das tramoias financeiras do filantropo Judah.

Landau tem uma das personagens de sua vida. Nunca se excede. Ir além, aqui, é justamente negar a ideia central: os homens podem matar, ou mandar matar, e ainda escaparem ao fim, pois a vida não é como a ficção, na qual as tragédias exigem justiça para saciar os desejos de leitores e espectadores.

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A vida é mais complicada. E Stern, de Allen, parece não entender isso. Sua história corre em paralelo. Ele é um diretor de pequenos documentários que ninguém parece se interessar – à exceção da produtora vivida por Mia Farrow.

A certa altura, ele recebe um convite para fazer um vídeo sobre a vida do cunhado (Alan Alda), um cineasta afetado, homem moderno da grande cidade, sempre na companhia de belas mulheres. O tipo que Allen parece detestar.

Mais do que sobre cinema, Crimes e Pecados é sobre a arte de contar histórias. O resultado é o encontro final entre Judah e Stern, quando conversam sentados ao pé de uma escada, longe do acerto banal ou fruto do acaso.

O filme deve mais a Crime e Castigo, de Dostoievski, do que a qualquer outro que abordou o mundo do cinema. Mais tarde, Allen retornaria às mesmas questões ao abordar a história do tenista que mata a amante e sai impune em Ponto Final.

O que leva Judah a matar tem a ver mais com dinheiro, menos com o temor de que a esposa descubra o caso. Nessas histórias banhadas em Dostoievski, nem sempre os assassinos – homens burgueses e cultos – serão presos e julgados ao fim.

(Crimes and Misdemeanors, Woody Allen, 1989)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock

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