Blue Jasmine, de Woody Allen

Com Para Roma, com Amor, Woody Allen fez um de seus piores filmes. Com Blue Jasmine, um dos melhores. As obras estão separadas por pouco mais de um ano. Diferente de outros diretores que passam longo tempo sem filmar, até mesmo décadas, Allen trabalha de maneira intensa e acompanha todas as etapas da obra.

O risco de errar, nessa velocidade, é grande. Em suas mutações, Allen felizmente tem acertado mais. Blue Jasmine é um desses casos, pequeno filme iluminado feito de personagens. Figuras medíocres em meio à comédia, em perfeita funcionalidade.

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blue jasmine

O espectador é levado à pequenez de Jasmine (Cate Blanchett), a protagonista. O que está em jogo e a torna menor é sua forma estreita de ver a vida, sua impossibilidade de se despregar do passado, da música que ainda ecoa em mente.

O ponto de partida está no encontro de Jasmine com a irmã, Ginger (Sally Hawkins). Ambas foram criadas pela mesma mãe, ambas adotadas. A mesma criação, outra vida e outro sangue. Ginger é despojada e vive feliz apesar de tudo: não pensa no amanhã, cultiva o sexo com homens diferentes e entende quem realmente é nesse meio de pessoas limitadas (financeiramente, sobretudo) mas felizes.

Existe como contraponto a Jasmine, claro. A protagonista tinha tudo (ou quase): era rica, casada com o homem desejado por qualquer mulher (ou quase) e não se preocupava com o dia seguinte, inundada como estava pelo luxo. Um dia o império ruiu e Jasmine, então pobretona, lota as malas e procura por Ginger.

Outros detalhes envolvem a história, incontáveis idas e vindas, sempre destinadas a levar as personagens – Jasmine ainda mais – ao mesmo ponto. Na comédia de Allen, não raro todos giram em espiral e terminam como sempre foram.

Vale lembrar a protagonista de A Rosa Púrpura do Cairo, a Cecilia de Mia Farrow. Seu término é feito de ficção, dentro de um cinema no qual a tela traz ninguém menos que Fred Astaire, em seus rodopios, com Ginger Rogers. Eram os tempos da Depressão, de miséria física. E era, para Cecilia, um tempo de esquecimento.

blue jasmine

Jasmine empresta algo de Cecilia. Sonha, retorna ao passado, vaga com os olhos pregados ao nada, em busca da fuga. Mas pode ser também ambiciosa. Traz em si algo destrutivo, a avareza do protagonista de Ponto Final, o melhor Allen feito na Europa.

Surgem suspeitas, em Blue Jasmine, de que a crise econômica mundial pode invadir esse terreno, pois o ex-marido da protagonista, Hal (Alec Baldwin), era um daqueles tubarões que rolavam dinheiro dos outros, apostador desenfreado.

Jasmine tirou dele um pouco de seu pior, e à frente se revela: segue da aparente mulher fraca e desequilibrada à delatora de um traidor e bon vivant. Camaleônica, em vários estados, ela pode ser tudo isso, diz Allen, ao longo dessa bela comédia.

Passado e futuro tocam-se: a Jasmine de antes (endinheirada, feliz, descobrindo os problemas do marido) e a Jasmine atual, à porta de Ginger, a irmã sorridente, para quem o dia não é nada senão a cópia de outro. É o mais irônico da obra: Ginger tem mais a ensinar a Jasmine que o oposto. A segunda ainda insiste em tentar alguns saltos. Fica com o vazio, com o olhar ao nada, tem menos que a sonhadora Cecilia.

(Idem, Woody Allen, 2013)

Nota: ★★★★☆

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