Poucas e Boas, de Woody Allen

A história de Emmet Ray permite duas certezas: ele tem medo de Django Reinhardt e ama a música. Por isso, não sabe lidar com sua arte: pode amá-la, mas não pode se aproximar do único músico que talvez esteja acima dele.

A condução é de Woody Allen, que se perde propositalmente de Emmet para se lançar ao jazz. Essa personagem é a desculpa para falar do estilo musical que adora. Poucas e Boas é sobre música, o que permite ao protagonista ser um demônio feliz.

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É sua maneira de ser – entre jogos e mulheres, sem se preocupar com a vida em geral. A música significa algo, engajamento, ou mesmo a produção de uma substância cuja beleza não parece clara a qualquer ouvido, ou a qualquer dono de bar e casa de shows.

Os empresários preocupam-se mais com ele, menos com sua arte. Um deles reclama: certa vez, após noites de bebedeira, o músico desaparece. Deixa o público esperando. O dono do estabelecimento não perdoa e demite o protagonista.

A única mulher que talvez veja beleza em sua música não fala uma palavra sequer. Uma delas deseja estudar a paixão por trás das canções, outra não dá a mínima para cada toque, para esse gesto de paixão, entrega – como fica evidente na sequência final.

Enquanto a América via-se afundada na Depressão, Emmet ainda contava com a sorte: ao tentar fugir de um show, depois de ser avisado que o também músico Reinhardt estava na plateia, ele quebra um telhado e cai sobre uma montanha de dinheiro falso. Pensa que é verdadeiro, compra um carro caro.

Em um dia pouco ensolarado da Depressão, ele brinca com um amigo de conquistar mulheres. Sem querer, como quase tudo em sua jornada, conhece uma garota muda, vivida por Samantha Morton.

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Ele fala demais, toca demais. Ela deixa ver tudo com sua expressão – ao passo que, como uma criança, será capaz de comunicar o amor. Essa relação é o que o filme tem de melhor. Empresta algo de A Estrada da Vida, de Fellini: a relação entre o beberrão Zampano (Anthony Quinn) com a inocente Gelsomina (Giulietta Masina).

O fato de nunca ter existido não significa que Emmet seja menos real. Poucas e Boas prefere o ambiente, as personagens, sobretudo a música. O próprio Allen aparece – como em um falso documentário, na companhia de supostos críticos – para contar algo sobre esse homem, salientar que, mesmo fictício, ele pode ter uma vida que inclui mais de uma versão para o mesmo fato. Um mistério que nunca existiu.

A estranha vida de Emmet leva-o a tocar violão em frente ao trem em movimento, ou a sacar a arma para matar ratos no lixão, ou mesmo a agenciar meninas quando cafetinava. Fez um pouco de tudo, nunca existiu. Ou, como sugere Allen, resta questionar, sob o risco do banho de água gelada: o que isso tem de tão importante?

(Sweet and Lowdown, Woody Allen, 1999)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Vida Secreta de Walter Mitty, de Ben Stiller

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