Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven

Cada vez mais fechada, a grande casa de Cinco Graças ainda deixa a luz invadir. A paisagem observada pela janela, ou através da estrada, deixa ver o mar, a grandeza. É a libertação possível – e o desejo, sobretudo – que o filme pretende retratar.

O título original, Mustang, remete a algo selvagem: as meninas ao centro, não por acaso, buscam liberdade. Uma ou outra consegue, mas nem todas escapam ao pior.

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No caso das mulheres, o destino, nessa Turquia, está traçado: serão prometidas a rapazes que não conhecem, submetidas a casamentos de mentira, como em velhas sociedades patriarcais regadas ao homem mais velho, de bigode saliente.

Este pode ser uma caricatura, ainda que seja real e indispensável ao drama do filme. Não é o pai, é o tio. As cinco meninas são criadas pela avó e por esse homem duro, que, ora ou outra, à noite, passa por cômodos em suspeito movimento, o que a direção às vezes discreta de Deniz Gamze Ergüven faz parecer abuso.

O homem enfurece-se com o movimento libertador das jovens: elas conseguem namorados, diversões, e, se necessário, fogem pela janela para viver não mais que uma vida normal, para cruzar a mata, a estrada e talvez chegar a um ponto qualquer.

Ainda que incômodo, o filme é leve. Nunca fácil, ainda que sua fluidez mostre liberdade mesmo atrás das grades da janela. Contra elas, as meninas lançam os pés enquanto a câmera flagra suas roupas curtas, divertimentos, da infância à adolescência.

Mesmo com a câmera tão perto, ainda assim é difícil penetrá-las, ou saber o que desejam além das inevitáveis escapadas. Confidenciam detalhes do sexo a dois, em um pacto ao qual levam a palavra baixa, as conversas em quartos fechados, os planos às vezes frustrados. Um filme sobre a adolescência, que começa com provocação.

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No início, as meninas saem da escola e aceitam nadar com alguns rapazes na praia. Sobem em seus ombros, duelam, divertem-se, o que pode ser considerado afronta aos adultos e seus espaços fechados, suas festas de véu e armas ao alto.

A avó descobre a farra no mar e leva as meninas, uma a uma, ao quarto. Precisa então analisá-las; durante essa breve passagem, enquanto são observadas pela mulher mais velha, as outras se desesperam ao perceber que a brincadeira ganhou outro peso.

Cinco Graças é contado pela irmã mais nova, Lale (Günes Sensoy). Durante o campeonato turco de futebol, ela pede que o tio leve-a ao estádio. Trata-se, diz ele, de um espaço de homens. Quando homens são proibidos de entrar no estádio, mais tarde, em nova partida, ela e as irmãs fogem para assistir ao jogo.

O futebol serve de provocação: no estádio, com a arquibancada cheia de mulheres, a cineasta registra a vibração feminina, a alegria ao fazer parte de outro jogo, de simplesmente romper o limite do “espaço masculino”, como dizia o tio.

O mérito do filme é se voltar mais aos desejos, ao que antecede as ações, menos às consequências e tragédias posteriores. O que importa à cineasta é registrar reações e corpos, movimentos constantes, a materialização da liberdade.

(Mustang, Deniz Gamze Ergüven, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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