A Fúria do Destino, de Martin Ritt

Dez em cada dez análises de A Fúria do Destino, de Martin Ritt, evocam a obra em que se baseia, O Som e a Fúria, de William Faulkner. As considerações afluem ao mesmo ponto: Ritt, trabalhando com um roteiro de Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., teria desmembrado o original, tornando-o linear e simplista ao público do cinema.

Tal crítica persiste em tempos nos quais alguns sucessos literários juvenis são transportados com frequência às telas do cinema, a reboque de garantias financeiras: os leitores puristas não cansam de apontar as “falhas”, ou as “diferenças”.

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Ou seja, o cinema não poderia escapar ao original, ainda que as linguagens – cinematográfica e literária – sejam, por natureza, diferentes. Pois o cinema, em seus desvios, às vezes, é verdade, para fazer concessões ao espectador, sempre evitará o original. Transporta ao celuloide seu próprio tempo e seus contornos.

A Fúria do Destino, vê-se, existe para além do livro de Faulkner: apesar de se basear nele, não precisa, em seu quadro final, mais do que na origem de suas personagens ou em suas motivações, alimentar-se de sua estrutura, de sua divisão de capítulos, da variação do ponto de vista de cada um dos membros da família Compson.

A obra de Ritt leva à grande casa em que eles vivem, em um tempo relativamente curto. Ninguém cresce ou se transforma demais nesse decorrer. O drama sulista brota de dias, não raro de instantes, não de décadas. Não quer ser uma epopeia, e nem sempre precisa invadir o interior das personagens quando, em cena, tem atores talentosos.

É cinema, talvez não tão grande como outros filmes do mesmo diretor e, como se veria, também sobre confrontos entre épocas e transformações: O Mercador de Almas, lançado um ano antes, e O Indomado, quatro anos depois, em 1963.

Em cena, a mesma decadência interiorana dos outros, os olhares inquisidores, os pequenos comércios que anunciam alguma modernidade, os alcoólatras que observam o mundo da velha varanda, ao lado das colunas brancas (como colunas gregas) que resistem ao tempo, na casa acessada somente pela estrada de terra.

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A porta de entrada dessa grande casa está suja. Tal detalhe dá ideia de decadência – sem a necessidade de mergulhos nas personagens e lances literários. Os Compson dão continuidade a esse universo expresso pela imagem: o que há em cena são seres borrados, principalmente Quentin (Joanne Woodward) e Jason (Yul Brynner).

Ela, a narradora, quer ser independente dele, o mantenedor da casa. No ponto em que o espectador é lançado, em um filme que explica apenas aos poucos as motivações das personagens e suas disposições, a história impregna-se de sinais passados.

A família perdeu, fracassou. Sequer o nome sobreviveu. É sobre decadência essa obra de Ritt. Quentin, mesmo com inclinação constante ao sexo oposto, carrega ambiguidade: não desfaz nunca o ar infantil da boba menina sulista.

Se há problema na obra, talvez seja despejar tanto em pouco tempo, com diferentes dramas e personagens que se cruzam. O possível romance que nasce do ódio, entre Quentin e Jason, apenas corrobora as ambiguidades, o apodrecimento das certezas desse meio do qual todos, talvez à exceção de um, tentam escapar.

A exceção é Jason. Tio adotivo de Quentin, ele ainda crê no nome da família. Ainda luta para resistir às novidades, aos viajantes do circo, aos desejos da sobrinha (que troca carícias e algo mais com um nítido aproveitador) e, principalmente, àquilo que seus parentes representam ao olhar estreito desse novo patriarca: a decadência.

Ritt dribla Faulkner sem deixar de referenciá-lo. Toma a base e faz seus próprios caminhos. Tem nas mãos a tragédia sulista – ou o que dela sobrou – com o clima construído à forma cinematográfica, algo que apenas o celuloide é capaz de reproduzir.

(The Sound and the Fury, Martin Ritt, 1959)

Nota: ★★★☆☆

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