A aventura acidental em dois filmes de Jacques Rivette

A ideia da aventura ou do suspense como “acidente” foi explorada várias vezes pelo cinemão hollywoodiano. Exemplo pode ser visto na situação de Cary Grant em Intriga Internacional: o homem no lugar errado, na hora errada e com o gesto errado torna-se parte de uma aventura, aqui com o timing único de Alfred Hitchcock.

Mas a aventura de Grant, acidental como parece ser, tem recortes e saídas costumeiras, situações que fazem de Intriga Internacional um (grande) filme de gênero. Nele, o acidente é apenas a fagulha da trama, a abertura a toda correria do protagonista. No fundo, o acidente dissipa-se. O Roger Thornhill de Grant é o verdadeiro herói.

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Não é possível dizer o mesmo das personagens de Jacques Rivette em dois filmes dos anos 80: Um Passeio por Paris e Merry-Go-Round. A aventura é toda acidental, à medida que as situações nunca deixam saber o que pode vir em seguida.

As criações de Rivette – seus passeantes-viajantes – não precisam se explicar. Os textos escapam às regras esperadas, aos “pontos de virada” quase obrigatórios aos roteiros do cinema de grande produção ou de gênero. Ao contrário, o diretor relata pequenas viagens, passagens simples, com a aventura que brota entre a corrida.

Suas personagens são palpáveis. Não chegam a ser tão exóticas, ainda que a figura de Pascale Ogier, em Um Passeio por Paris, indique uma moça talvez de outro planeta, alguém que está aos poucos descobrindo a humanidade, distante e intensa.

Obra grandiosa, Um Passeio por Paris é feito de puro acidente: ao fundo, ainda que se queira ver uma trama que envolve assassinato, policiais ou bandidos, fica difícil tocá-la.

O que se tem, sobretudo, é o encontro casual de duas mulheres, Pascale e Bulle Ogier, Baptiste e Marie. São quatro dias em que elas descobrem-se por acaso, primeiro com uma trombada, depois por força dos atos, das perseguições, da trama distante.

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Trama quase não há. Na falta, elas inventam. E o espectador sente curiosidade de entender o que não há para entender: o que significa aquele jogo feito sobre o mapa de Paris, com a cidade dividida entre quadros, com Marie tentando encontrar sentido?

A vida, diz Rivette, é uma sucessão de acidentes e acasos: seus passeantes-viajantes não precisam de vilões, como Cary Grant, para tragá-los ao interior da “história perfeita”, acabada, com suas evoluções, vilões frios, seu fechamento ideal.

Mesmo que cercado por algum suspense, Um Passeio por Paris aproxima-se da comédia. Anuncia uma cidade à margem, um pouco futurista, com as personagens a vagar entre seus escombros, suas sobras: morre uma Paris para talvez nascer outra. Em uma cena curiosa, Marie invade o quadro da destruição, passa ao lado da grande máquina que demole uma velha casa. É a ficção raptando a realidade.

O encontro e a aventura são frutos do acaso, a partir da trombada entre duas mulheres, e serviram de base também ao belo Céline e Julie Vão de Barco, da década anterior, trabalho de Rivette igualmente marcado por intensa improvisação de atores.

Mas enquanto Céline e Julie escapa ao surreal, a outra produção, de 1981, leva suas criaturas ao contato com a estranha realidade da cidade, com os malandros que fingem ser amantes, com assassinos de aluguel, jogos de carta pela rua.

merry-go-round

A obra seguinte de Rivette, Merry-Go-Round, foi lançada no mesmo ano de Um Passeio por Paris e, diferente da anterior, sua história não parte do acaso. As personagens encontram-se por força de uma terceira, em um hotel. Uma trama consciente aos poucos é delineada: uma mulher desaparecida, um homem que fingiu a própria morte em um acidente de avião, alguns bandidos atrás de dólares na Suíça.

Por outro lado, Rivette não leva à empolgação do desenrolar, da procura pelos fatos; o que importa, sempre, é o meio, o efeito acidental. Por isso, a aventura das personagens de Maria Schneider e Joe Dallesandro não pode ser de outra forma senão confusa, ou aparentemente confusa, com idas e vindas, com explicações vazias.

O cinema de Rivette opera nesse meio, na aparência do acaso, ao mesmo tempo em clima surrealista. As mortes, ao fim de Um Passeio por Paris e Merry-Go-Round, funcionam como ponte à conclusão forçada, abrupta, delirante – mais do que as dos filmes de Godard nos anos 60, com seus bandidos baratos.

A escritora e cineasta Marguerite Duras diz que o assassinato ao fim de Um Passeio por Paris equivale a um acidente cardíaco, “um assassinato decidido por Deus”. A morte compõe esse quadro de acidente, interrompe o fluxo, não tem paixão – não, pelo menos, no que toca as personagens, o algoz e a vítima. Morte aparentemente banal, mas cercada de sentido. “Não me lembro de ter visto no cinema uma tragédia de tal pureza”, confessa Duras, em conversa com Rivette, sobre esse instante mágico e verdadeiro.

(Le pont du Nord, Jacques Rivette, 1981)
(Idem, Jacques Rivette, 1981)

Notas:
Um Passeio por Paris: ★★★★☆
Merry-Go-Round: ★★★☆☆

Fotos 1 e 3: Um Passeio por Paris
Foto 3: Merry-Go-Round

Veja também:
Jacques Rivette (1928–2016)
Céline e Julie Vão de Barco, de Jacques Rivette

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