Carol, de Todd Haynes

As mulheres saem em viagem com diferentes intenções no filme de Todd Haynes. Para Carol, é a oportunidade de fugir de sua vida de prisões, do marido e da família moralista. Para Therese, é a maneira de se descobrir, o que leva à sexualidade.

Ainda que o filme seja visto pelo olhar da segunda, é a primeira que fornece todas as mudanças: é ela que fará Therese (Rooney Mara) ver o mundo de outra forma, o que sua paixão pela fotografia – e depois seu trabalho – apenas representará.

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Antes dela, há os trenzinhos, as bonecas na loja de departamento na qual Therese trabalha: a amostra do velho mundo de curvas perfeitas, em que “todos” são destinados às formas da porcelana, ou a girar, rumo ao mesmo destino, ao mesmo lugar.

É nessa loja, em Carol, que ambas se veem pela primeira vez. Não é um olhar qualquer. Para Haynes, será difícil dizer quem se sente mais atraída. E são sensações diferentes: enquanto Carol sabe o que deseja, Therese parece saber pouco, experimentar.

O ambiente ao redor dá tom ao drama, com uma história que começou há muito tempo, com Douglas Sirk e seus incríveis melodramas feitos para a Universal, entre eles Tudo o Que o Céu Permite, no qual a mãe de família (Jane Wyman) é impedida pelos filhos de namorar um jardineiro jovem e ganha uma televisão de aniversário.

Na tela da televisão, em Carol, em importante sequência passada em um almoço, a personagem-título assiste à imagem do poder, à imagem masculina. A sociedade, então pautada em grande parte pela televisão, reproduz a voz do homem.

Assim, a relação entre duas mulheres só poderia estar condenada. É contra essa sociedade que as personagens devem lutar, principalmente Carol, interpretada por Cate Blanchett, ao mesmo tempo desafiadora e disposta a ceder aos outros.

Espécie de Anna Karenina, forte e destinada a amar a filha pequena – como qualquer mulher. Levada, em partes, a desafiar a ordem, mas obrigada a recuar quando o marido une provas contra ela, devido à relação com Therese, para assim ter a guarda da menina.

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Ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades desse mundo feito às aparências, Carol é também para Therese o caminho inevitável à repressão: tudo o que a rodeia – suas festas, seu meio, as intermináveis cerimônias – remetem ao atraso.

Em momento exemplar, Haynes filma Carol em uma festa, pelo lado de fora da casa, enquanto a personagem conversa com outra mulher em uma janela. Quando a outra fala sobre fumar escondida do marido, Carol afasta-se para o espaço da outra janela.

Soluções simples e visualmente interessantes, em um drama forte, que não precisa mais que alguns movimentos e expressões, ou às vezes o silêncio, para entregar o necessário sobre as mulheres ao centro. Filme feminino, delicado, sobre se libertar.

Mais interessante é a ótica de Therese, o ponto central. A obra de Haynes, com ela, coloca-se nesse momento de mudança – o que explica o final feliz. É com a jovem que o espectador fará perguntas, que encontrará a fonte do sofrimento: é alguém que tenta entender seus sentimentos enquanto se depara com as regras da sociedade em questão.

Não é de estranhar que Therese oferece, sem esforço, a imagem da mulher emancipada: diz à companheira, a certa altura, que sempre esteve sozinha entre a multidão, destinada, em outro caso, à vida medíocre de tantas outras, felizmente no caminho contrário.

(Idem, Todd Haynes, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os filmes de Todd Haynes

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