A Lenda do Santo Beberrão, de Ermanno Olmi

As lembranças do protagonista de A Lenda do Santo Beberrão chegam ao espectador como um filme mudo: são imagens quase sempre rápidas de situações passadas, unidas apenas à música, entre momentos felizes e outros trágicos.

Há nesses trechos o essencial, carregado de certo mistério. Ele, o mendigo Andreas Kartak (Rutger Hauer), vaga por Paris, à beira do Sena, e dorme sob as pontes, em jornais; sequer sabe o dia em que vive.

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a lenda do santo beberrão

Seu destino muda, ainda nos primeiros instantes, quando encontra um homem misterioso, interpretado pelo veterano Anthony Quayle. Ao mendigo, o cavalheiro oferece 200 francos. O dinheiro é muito ao primeiro, não tanto ao segundo.

Ainda que pareça, não se trata de algo dado. Trata-se de um empréstimo cujo pagamento deverá ser feito à igreja da santa Tereza de Lisieux. O mendigo diz que o melhor dia para fazê-lo é o domingo, dia de missa. O outro concorda.

Esse pagamento não chega a ser o motor do drama da obra brilhante de Ermanno Olmi. E mesmo com contornos fantásticos, o filme leva o público não raro à solidão de seu protagonista, e assim deixa ver o destino do moribundo.

O dinheiro traz mais dinheiro, ou sorte. O homem ao centro parece não compreender, tampouco o público: logo surge uma oportunidade de emprego e, não muito à frente, Andreas encontrará pessoas que passaram por sua vida, como a mulher que motivou sua desgraça e um antigo amigo boxeador, que se deu bem na escola ao colar do outro.

O protagonista não ficará rico. Seu destino ainda o leva à sarjeta, para noites ao relento, para os bares de gente triste, nos quais será cobrado antes de sair.

Perto do fim, Andreas chora, tenta balbuciar algo, enquanto vê um homem tocar levemente a mão de sua companheira, no bar, em outra mesa, pela manhã. A tristeza, nem sempre fácil de explicar, em certa medida explica a obra: A Lenda do Santo Beberrão libera-se dos supostos milagres e golpes do destino. Volta-se ao homem.

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E esse homem triste, às lágrimas sinceras, é o que há aqui de maior, o homem que não consegue pagar sua dívida, que, a cada tentativa de atravessar a rua, ir à igreja, é interrompido por alguém. Pagará apenas perto da morte, quando volta a encarar a santa.

Sinal de que os homens – não apenas os moribundos e alcoólatras – deixam suas dívidas com deuses e santos sempre para a última hora: é o momento em que, sem nada, tão perto do fim, resta entregar o que se deve e, quem sabe, ser absolvido.

É uma leitura possível. O filme de Olmi, a partir do livro de Joseph Roth, abre inúmeros caminhos. Sua personagem não se compromete com o público além do olhar entristecido, ou além do desejo viver – ao ir a bares, ao se divertir com sua vizinha no quarto do hotel (Sandrine Dumas) ou mesmo quando observa as pernas da vendedora da loja de artigos masculinos, enquanto sob a escada, momento curto e saboroso.

Seu passado é um filme mudo. Passado que escapa às palavras, encenado em imagens que explicam o necessário. O que se encontra no início da obra de Olmi é o que restou: alguém que acredita na sorte, ou na santa, e que ainda tenta sobreviver ao imprevisível.

(La leggenda del santo bevitore, Ermanno Olmi, 1988)

Nota: ★★★★☆

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