Julieta, de Pedro Almodóvar

A divisão da personagem central, Julieta, leva a mulheres diferentes: primeiro à apaixonante Adriana Ugarte, mais tarde à culpada Emma Suárez. Antes de contar como perdeu a filha, a protagonista conta sua história, sobre perdas e paixões.

É a Julieta mais velha (Suárez), escondida em óculos quadrados, cabelo curto, batido, que retorna à história da própria vida: ela recai às páginas em branco de um caderno e passa a preenchê-las, em tom à beira da obsessão, cercado de mistério.

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Na juventude, o espectador tem Ugarte, bela, de cabelos curtos, a Julieta que o diretor Pedro Almodóvar faz apaixonante, a agarrar qualquer um. Sequer precisa explicar que está nos anos 80. Seus cabelos arrepiados denunciam o tempo, também a liberdade exalada pela moça que toma um trem, certa noite, e conhece um homem interessante.

É o pescador Xoan (Daniel Grao), futuro pai de sua filha. A conexão entre ambos é imediata. O homem é casado, mas sua mulher está em coma. O reencontro entre o novo casal ocorre no momento em que a outra morre. Passam então a viver juntos.

Em Julieta, quase todas as mortes dão espaço a união ou reencontros. A protagonista une-se ao futuro marido quando um homem estranho e sozinho suicida-se na linha do trem e, depois, com a morte da mulher do companheiro.

À frente, o pai de Julieta une-se à outra mulher, sua criada, quando a mãe da personagem-título aparenta estar próxima da morte, além de senil. Mais velha, a protagonista conhecerá outro homem (Darío Grandinetti) no momento da morte da amiga e artista plástica Ava (Inma Cuesta). Ainda depois, Julieta reencontrará a filha quando é informada da morte de seu neto, por carta, já nos instantes finais.

As reviravoltas oferecem contornos de melodrama. Almodóvar, contudo, faz um filme propositalmente frio – ainda que seja difícil conter as cores fortes de seu cinema, como a intensidade de suas personagens. O diretor luta contra si mesmo.

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A começar pelo apartamento da Julieta mais velha, com ares modernos, o vermelho da parede em confronto com os tons escuros de outros espaços. Ao relembrar a filha, a protagonista percebe que não adianta duelar com a memória: junta suas coisas e se muda a um velho apartamento do mesmo prédio em que vivia.

O tema central, portanto, é o confronto com o tempo – embalado pela culpa da personagem central e a tentativa de exorcizar o passado ao jogar nas páginas em branco sua própria vida. E nesse ponto a questão fica ainda mais curiosa: tudo chega ao espectador pelo ponto de vista de Julieta, por sua maneira de ver o próprio drama – às vezes o da mulher apaixonante, às vezes o da incompreendida e à frente culpada.

No encontro com Xoan durante sua viagem, a personagem vê um cervo, do lado de fora, correndo livremente entre a neve, próximo à linha do trem. E, nessa mesma viagem, há o estranho homem que se suicida e que dividia a cabine com Julieta.

De um lado o homem sem passado, cuja bagagem não tem nada além do vazio, que escolheu morrer; do outro o cervo livre e nada consciente do risco que corre ao estar ali, próximo ao grande veículo metálico. O filme é feito dessas estranhas aproximações.

Como nos outros trabalhos de Almodóvar, as cores perseguem. O vermelho do primeiro plano, na toalha, retorna para cobrir a Julieta de Ugarte e levar à Julieta de Suárez. Ainda que não pareçam, elas são a mesma mulher.

(Idem, Pedro Almodóvar, 2016)

Nota: ★★★★☆

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