Olympia – Partes 1 e 2, de Leni Riefenstahl

Os corpos velozes e voadores não pertencem ao mundo bruto, habitado por gente comum. Não, pelo menos, nas duas partes de Olympia, de Leni Riefenstahl.

O que coloca essas figuras em outro degrau é o ponto de vista da cineasta alemã, a maneira como registra o movimento, a celebração de seres sem voz durante as Olimpíadas de Berlim, em 1936 – e, sobretudo, a insistência em retornar ao céu, à ideia de que apenas o desejo de superação, por instantes, leva a tocar o divino.

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É ao divino, no fundo, que Riefenstahl insiste em retornar. Seus homens e mulheres, seus seres, não precisam de vozes e definições. A beleza nunca se perde: mesmo fracos, exaustos, os corredores deixam semblante de satisfação. Não há qualquer entrevista. Às vezes, e em casos raros, é possível ouvir os gritos desses atletas, ordens intrusas.

Na celebração dos corpos, entre o céu e a terra, Riefenstahl volta ao público, que vibra, dança, grita, sempre distante, partícula a compor outro espetáculo. Há também o narrador, para orientar o espectador e dar nome aos competidores.

O documentário não busca a realidade, não tenta dar conta de todas as modalidades e disputadas olímpicas da ocasião. Mais do que registrar performances e resultados, o feito é estético: algo que toca os deuses do Olimpo, ou estátuas em movimento.

O filme começa na Grécia, no berço dos jogos, também no espaço das grandes estátuas: o que surge em cena, primeiro, são as formas em pedra, dos grandes monumentos, depois as rochas com formas humanas – até se transformarem em homens.

A rocha dá vez à vida. O homem de carne e osso é possível. Corre e joga lanças apenas cobrindo seu sexo. O corpo tem de parecer perfeito, como se essa ideia de perfeição escapasse a uma época, a uma forma. E naturalmente escapa.

É o que se vê no mergulho de Riefenstahl na busca pelo perfeito. As Olimpíadas de Berlim mostram, às aparências, como se ensaiava outro mundo, de pessoas lutadoras, felizes, nem sempre conscientes em relação aos problemas externos. A ideia de perfeição, a começar pelo corpo, casava-se à ideologia nazista.

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Os corpos em cena, para alguns, dão forma à propaganda hitlerista: dão a clara ideia, em sua maior parte, de como deveriam ser os soldados do líder, cuja satisfação, entre o público do estádio, é ora ou outra flagrada enquanto se desenrolam as competições.

Dá para argumentar o oposto: Leni Riefenstahl também flagra grandes atletas negros, de outras nacionalidades. Entre eles, o gigante americano Jesse Owens e seus recordes na pista de corrida, seu olhar sincero, seu sorriso comum. É, ironicamente, o momento para retirar o gigante de seu espaço e torná-lo gente comum.

Isso não ocorre apenas com Owens. Outros atletas – ou quase todos – passam por essa transformação. Do alto, em voo, ou em terra, velozes, sempre retornam para lembrar suas raízes e verdadeiras formas: nem sempre são deuses supremos.

É a condição libertadora da obra de Riefenstahl, o que talvez a coloque no limite do documentário, do registro, mas nunca totalmente na zona de pura realidade.

As duas partes de Olympia são amostras da possível distância entre humanismo cotidiano e beleza física, a ideia de que os seres em cena não precisam se explicar, com seus pensamentos e prazeres, com suas vidas privadas distantes da arena.

O feito de Riefenstahl é único, com a ambiguidade a absolvê-la, mais tarde, quando acusada de colaboradora nazista. O cinema fala por ela, com beleza e distância.

(Olympia 1. Teil – Fest der Völker; Olympia 2. Teil – Fest der Schönheit, Leni Riefenstahl, 1938)

Nota: ★★★★★

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