Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert

Perto do fim de Mãe Só Há Uma, o protagonista lança a frase que define a obra de Anna Muylaert: “Eu não escolhi ser sequestrado”. Poderia acrescentar ainda mais: ele não escolheu se interessar por homens ou mulheres. Permitiu se descobrir.

Pois o filme – um grito de liberdade, como define a cineasta – mostra uma vida, ou parte dela, pautada por descobertas, não por simples escolhas. O adolescente ao centro, Pierre (Naomi Nero), beija homens e mulheres, meninos e meninas.

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Vale pensar: as descobertas surgem antes, as escolhas depois. Ou seria o oposto? No começo do filme, Pierre faz sexo com uma menina no banheiro da casa na qual ocorre uma festa adolescente. Usa roupas íntimas femininas durante o ato sexual.

Enquanto vive com a mãe de criação, Pierre limita algumas de suas descobertas e desejos ao banheiro de casa. São momentos em que usa calcinha e se fotografa, em que passa batom, em que depila o peito. Menino de classe média, ele não tem a liberdade restringida. Tem sua banda, frequenta baladas, relaciona-se com que quiser.

À frente, o protagonista descobre que foi roubado na maternidade. Sua verdadeira mãe é outra. Essa transformação leva-o à revolta nem sempre expressa pelo grito, pela fúria; ao contrário, Pierre quase sempre volta a face para baixo, não encara os outros.

Surge a outra família, contrária aos modos “anormais” de Pierre. Surge o problema e, devido à mudança, curiosamente o espaço para outras afirmações do menino.

Não mais com a família pela qual foi moldado, ele encontra espaço para ser quem deseja ser: é na nova família que poderá usar as roupas femininas que deseja – seja por vontade ou por confronto. Em qualquer dos casos, Pierre afirma quem realmente é.

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A nova família leva o garoto a suas regras, ou às escolhas que acredita já ter feito para ele. Erra. Essa família, nunca tratada como vilã, ou como a anormal da situação, será reproduzida por um pai carinhoso mas autoritário (Matheus Nachtergaele), que não entende a escolha do filho por roupas femininas, pelos vestidos que expõe.

É na sequência do jogo de boliche em família, perto do fim, quando Pierre diz a frase aqui citada, que essas diferenças tornam-se insuportáveis: o garoto estabelece o ponto fora da curva, a contestar a imagem da família conservadora e heteronormativa.

Poderoso pela discussão que trata (e como trata), Mãe Só Há Uma também se realiza visualmente, com cenas poderosas em seu naturalismo e contestação dos supostos bons modos, do “modelo” de sociedade, com leveza e câmera na mão.

Como no anterior Que Horas Ela Volta?, Muylaert leva o drama a conta-gotas, gestado às vezes em silêncio, para mais tarde dar vez à saída de Jéssica (Camila Márdila) da casa dos patrões de sua mãe, ou, em Mãe Só Há Uma, à investida de Pierre (e não Felipe, nome dado pelos pais biológicos) contra sua nova família.

O encerramento abrupto pode até parecer um problema. No entanto, Muylaert não pretende “resolver” esse drama, dar-lhe acabamento que apazigue. O término faz com que o filme siga com o espectador. Os conflitos continuarão.

(Idem, Anna Muylaert, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert
Cinco filmes recentes que abordam identidade de gênero

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