Entrevista: Anna Muylaert

Ao fazer a apresentação de seu novo trabalho, Mãe Só Há Uma, a cineasta Anna Muylaert disse que uma das características do filme é impedir previsões fáceis. Ao centro está o drama de Pierre (Naomi Nero), adolescente que faz descobertas relacionadas à sexualidade e é surpreendido com a notícia de que não foi criado pela mãe biológica. O turbilhão de mudanças da personagem contrasta, em certa medida, a direção de Muylaert, cuja suavidade confere beleza à obra.

A entrevista abaixo ocorreu antes da sessão do filme, no Cinépolis do JundiaíShopping, em Jundiaí – cidade na qual reside o autor deste blog.

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anna muylaert

Seu filme trata da questão de gênero. Qual a importância de trazer essa discussão à sociedade?

Acho que a discussão está sendo maior do que eu imaginava. Os jovens que vivem essa questão, a do mundo não binário, que não cabe só em homem e mulher, estão gostando muito do filme, estão se sentindo representados e estão muito felizes que haja um filme falando disso, dessa geração que ainda é muito nova. Está sendo bem legal.

Produções de fora do Brasil, relativamente recentes, também discutem essa questão. Por que a produção brasileira tinha certa dificuldade em discutir a questão de gênero?

De qualquer maneira é uma questão nova. Não faz muitos anos que as pessoas estão falando sobre isso. Acho natural. Eu sei que o Daniel Ribeiro [diretor de Hoje eu Quero Voltar Sozinho, que trata de relacionamento gay] também fará um filme com a história de uma transexual. É um tema que está chegando. O ano passado foi um ano em que isso veio forte, por causa do Bruce Jenner, que virou Caitlyn Jenner, e depois com as irmãs Wachowski. É uma discussão que está saindo cada vez mais da periferia e vindo para o centro.

Em relação à maternidade, que seu filme também trata, você já havia abordado a questão no seu filme anterior, Que Horas Ela Volta? (imagem abaixo). Por que a perseguição ao tema maternidade?

As pessoas vêm me fazendo essa pergunta e não tenho muito clara a resposta. Acho que a mãe é um personagem formador, então de alguma maneira eu acabo querendo discutir questões da sociedade através da mãe, porque a mãe e o pai, os pais, a família, são a primeira instância da sociedade, que nos passa a língua, os costumes. Simbolicamente, acho, a mãe é isso, ou então tenho que ir ao analista (risos).

que horas ela volta2

Nos seus filmes anteriores, Que Horas Ela Volta? e É Proibido Fumar, você teve atrizes de peso, da Rede Globo. E em seu novo filme, Mãe Só Há Uma, me parece que não há um ator que pode ser atração para bilheteria. Isso tem limitado o espaço do filme?

Esse filme já nasceu para ser pequeno. Eu queria fazer um filme menor, justamente para poder me arriscar na linguagem. Esse é o meu primeiro filme com câmera na mão. Eu ganhei um prêmio do MinC [Ministério da Cultura], de baixo orçamento, e fiz esse filme até de um modo mais rápido que o tradicional. A ideia era trabalhar com um filme menor e ter essa liberdade. Acho que um elenco desconhecido traz um frescor. Claro que adoro elenco conhecido, mas são duas propostas diferentes.

Gostaria de falar sobre o momento que o Brasil está vivendo hoje. Vimos recentemente exonerações na Cinemateca Brasileira, depois com o recuou do Ministério da Cultura. Como você vê as mudanças tomadas por esse Ministério e os rumos que nossa política nacional vem tomando em relação à cultura?

Uma vez que se entra na zona da inconstitucionalidade não há muito mais o que esperar. Podem ocorrer tanto coisas legais quanto coisas não legais. Essa intervenção violenta que vem ocorrendo, com a demissão de técnicos, não é boa. Tanto é que voltaram atrás. Como também voltaram atrás com a demissão do Ricardo da EBC [Ricardo Melo, presidente da Empresa Brasil de Comunicação, demitido pelo presidente Michel Temer, mas que depois retornou ao cargo]. Sou contra toda forma de autoritarismo. Essa passagem de governo foi uma espécie de sequestro.

E essa passagem pode afetar futuras produções?

Não sei dizer. É uma coisa que não dá para saber. Acredito que a Ancine [Agência Nacional do Cinema] esteja protegida, aparentemente. Mas não sei, realmente não sei.

Veja também:
Entrevista: Beto Brant
Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert
Cinco filmes recentes que abordam identidade de gênero

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