O Cavalo de Turim, de Béla Tarr

O movimento repetitivo revela aprisionamento em O Cavalo de Turim. Durante alguns dias, suas personagens retornam aos mesmos afazeres: a filha veste o pai pela manhã e, mais tarde, retira água do poço para cozinhar batatas.

À mesa, o pai usa as unhas para retirar a casca do alimento, levando-o à boca com dificuldade devido ao calor. Difícil, em filme tão frio, não reparar na fumaça que sai da batata, e não despregar os olhos de movimento tão singelo, ainda assim marcante.

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O meticuloso trabalho de Béla Tarr valoriza o plano, como se viu em filmes anteriores do cineasta. O movimento de câmera, a exploração de ambientes aparentemente pequenos, a repetição como prova da passagem do tempo.

Do lado de fora da casa há muito vento. Não termina. O espaço é apresentado ao espectador com a chegada do pai, que não consegue mais escapar. O velho homem (János Derzsi) vive com a filha (Erika Bók) e o cavalo, animal com sinais de desgaste.

Antes dessa chegada, o narrador anuncia uma história envolvendo o filósofo Friedrich Nietzsche, quando foi tomado por um ataque de fúria ao presenciar maus tratos a um cavalo, momento em que o animal recusou-se a sair do lugar e foi açoitado.

A história que se segue, em O Cavalo de Turim, tenta dar conta do destino desse animal, ou a história das pessoas que o cercam. A exemplo de outros filmes de Tarr, há mistério em excesso: o aparente realismo, como se viu em As Harmonias de Werckmeister, nem sempre prevalece. Estranhas situações quase levam ao sobrenatural.

Todos os filmes do diretor exploram o aprisionamento, pessoas que tentam escapar e não conseguem. Em todos (ou quase), as personagens observam o que há para além da janela, como se sonhassem com a passagem, ou como se fossem testemunhas da repetição. Em Danação há as torres de minério. Em O Cavalo de Turim, o vento.

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O maravilhoso preto e branco carrega sozinho algo perdido no tempo: pai e filha vivem em lugar indefinido, isolados, sem histórias e poucas palavras.

Há quase nada a falar sobre eles além de suas repetições. Quando resolvem ir embora, o espectador vê a menina guardar uma velha foto na mala de madeira, provavelmente de sua mãe. É um pequeno intruso, rastro de história, ainda assim solúvel.

A intenção de fugir logo se dissipa: eles retornam com o cavalo e a carroça. Aquele ambiente, como anuncia o vento constante, uma ideia de fim do mundo, dá vez à deterioração, ao flerte com a morte certa. Como diz o pai, à noite, os cupins pararam de fazer barulho. Foram embora. Logo, o cavalo deixa de comer e a água desaparece.

Vem, na parte final, a escuridão – e qualquer dado sobre os acontecimentos, com o risco de revelar muito, mostra-se quase nada: O Cavalo de Turim realiza-se como puro cinema, difícil de descrever sem que se caia em suas repetições.

É raro: um filme que hipnotiza com a aparente ideia do nada, de estranha profundida, de fotografia magistral, de composições simples e ao mesmo tempo grandiosas.

Tarr é descendente de Andrei Tarkovski e Miklós Jancsó, com planos-sequência que mapeiam ambientes e personagens, a retirar delas total desolação mesmo com a ausência de palavras. Basta se fixar nos rostos do pai e da filha, com nada mais à volta senão a pura escuridão, para ter uma ideia do drama, ou mesmo da morte certa.

(A torinói ló, Béla Tarr, 2011)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Bastidores: Anticristo

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