As Duas Inglesas e o Amor, de François Truffaut

As duas mulheres, no início, são jovens questionadoras. Não sabem bem o que é amar. O contato das duas inglesas com o francês Claude (Jean-Pierre Léaud) muda a vida de ambas: há algo para além da pequena casa à beira mar em que se conhecem.

A vida delas começa a mudar quando Claude vai passar alguns dias ali, na Inglaterra. Ou antes: quando uma delas, Ann (Kika Markham), fez uma visita a ele, na França. O filme é sobre passagens entre países, entre amores, entre diferentes.

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duas inglesas e o amor

A cada uma, Claude entregará algo: a Ann, a libertação, a vida como uma mulher formada, a experiência física; a Muriel (Stacey Tendeter), o amor louco, o sentimento que ela nega e que depois a toma em As Duas Inglesas e o Amor.

Ou, por se tratar de um filme de François Truffaut, poderia ser o amor estranho. Pois o amor, nessa obra, baseada no livro de Henri-Pierre Roché, sempre depende da negação. Quando Claude quer, Muriel não quer; quando chega a vez dela, é ele que volta atrás.

Seguem assim por algum tempo, entre troca de cartas, entre dores às vezes contidas, às vezes convertidas em desmaios. As moças até poderiam tentar esconder algo, ajudadas como são pelo lado pacato britânico. Ainda assim fracassam com frequência.

Para suprir a dor da ausência de Muriel, Claude, por um período, terá Ann. O triângulo amoroso está formado. Ann vai a Paris. Pinta quadros e convida Claude a frequentar seu ateliê. O rapaz também está envolvido com artes, deseja escrever.

O lado pacato do início, com seus contornos comportados, passa à libertação de ambientes despojados. O filme muda, ganha vida. Mas o amor continuará a ser um problema ao trio, principalmente a Muriel, que decide renunciar a quase tudo.

No filme de Truffaut, o amor é um problema fundamental, insuperável. Ao fim, quando Claude encara seu reflexo e crê estar velho, é como se perdesse a paixão: cansou de esperar pela amada, ou de procurar seu reflexo nas jovens garotas.

duas inglesas e o amor2

O início, com as primeiras brincadeiras e convivências, é cheio de estranheza. Ann fala muito sobre Muriel. É certo que o amor pela irmã impede-a de investir no rapaz. E é certo que estará mais aberta ao mundo se comparada à outra, e com mais amantes.

Muriel tem problema nos olhos, não pode ficar exposta à luz forte. Com frequência é vista de óculos escuros. Quando Claude reencontra-a no ateliê de Ann, eles precisam ficar no escuro, o que resume mais que o universo dela: é também o anúncio do amor insuportável e estranho, amor às sombras que não pode dar certo.

Com Ann, ele vive dias de prazer à beira de um lago. Ambos aceitam os outros relacionamentos. Vivem a liberdade. A moça transforma-se, deixa que seu corpo seja tocado. E Truffaut sempre prefere a distância, a narração calma e explicativa.

De Roché, Truffaut adaptou também Jules e Jim – Uma Mulher para Dois e fez um belo filme. Ambas as histórias tratam de triângulos amorosos, ambas sobre o fracasso em lidar com o amor, ainda que de diferentes maneiras.

Em As Duas Inglesas e o Amor, Claude encontra dois mundos em duas mulheres. O que resta dessa experiência – com prazer e amor – é o homem que ainda vaga em busca de um sinal, com o reflexo que traduz o tempo e o fim.

(Les deux Anglaises et le continente, François Truffaut, 1971)

Nota: ★★★★☆

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