Câncer, de Glauber Rocha

Alguns filmes de natureza experimental nascem para não fazer sentido – isso, claro, se o espectador estiver em busca da narrativa convencional.

É o caso de Câncer, de Glauber Rocha, longa-metragem feito inteiramente com improvisação, em 16 mm, som direto, em 1968, um mês antes de o cineasta começar a roda O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e terminado apenas mais tarde, em 1972.

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câncer

Em entrevista realizada em 1969, para Federico de Cárdenas e René Capriles, Glauber definiu Câncer como um filme sobre a violência. Em seu decorrer, em visual inegavelmente precário, surge todo tipo de violência possível.

São planos longos, sem cortes. Uma experimentação – entre outras – assumida pelo cineasta, com uma câmera que captava pouco mais que dez minutos ininterruptos. O produto final é menos barroco que outras de suas obras, marginal em todos os aspectos.

A realização deu-se em regime de improviso, em um tempo livre com o qual Glauber passou – antes de iniciar as filmes de O Dragão – com os atores Hugo Carvana, Odete Lara e Antonio Pitanga. O trio improvisa tudo, sem texto, sem nada.

A atriz lembraria, mais tarde, que Glauber convidou-a para um passeio, no Rio de Janeiro, com Carvana e Pitanga. Chegaram à praia, na qual, pouco depois, o diretor deu início à filmagem. “E o script?”, perguntou Lara. “Não tem script nenhum. É improvisação”, informou Glauber. Tal sequência está na parte final da obra.

O resultado pode parecer indigesto à primeira vista. O improviso é óbvio. Em uma das cenas, na qual Pitanga e Carvana levam um produto americano, furtado, para um delegado de polícia, é, em todos os aspectos, deficiente – com o microfone da captação do som à vista e gritos, provavelmente de Glauber, ao fundo.

A ideia do cineasta – a partir do tema “violência” – era fazer um filme livre de qualquer regra, cinema pelo cinema, “uma experiência de técnica”, como ele próprio diria a Cárdenas e Capriles, “do problema da resistência da duração do plano cinematográfico”.

Em suma, Glauber explora o plano-sequência, a técnica, a ausência de limites escancarada pelo cinema underground, cujo título, Câncer, faz pensar na doença intrínseca, que nasce com cada ser: a primeira forma de violência.

Não há uma história a ser contada, nem por isso a ausência de sentido. O filme vale-se da forma e – ainda que pareça fuga fácil – de suas próprias deficiências. Uma obra que faz pensar no fundo, no regime de realização, que faz escapar do universo estrito às personagens, às situações de seu meio, para dar vez ao câncer de uma sociedade.

(Idem, Glauber Rocha, 1972)

Nota: ★★★☆☆

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