Dois Caras Legais, de Shane Black

A paranoia ao fundo de Dois Caras Legais é típica dos anos 70, tempo em que o cinema americano dedicou-se a filmes sobre grampos ilegais, situações políticas espinhosas, além de uma coleção de anti-heróis.

Não por acaso, o fantasma de Richard Nixon retorna no filme de Shane Black. A certa altura, a personagem de Russell Crowe, Jackson Healy, conta ao parceiro Holland March (Ryan Gosling) a história de um homem que viu Nixon, o verdadeiro, pouco antes de morrer. É o bastante para que o ex-presidente figure como assombração.

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dois caras legais

Antes, quando os protagonistas encontram-se em um banheiro, March esconde as partes íntimas com um revista. O rosto de Nixon novamente surge na tela, ao contrário, na capa da publicação. Difícil escapar a esse fundo incômodo, mesmo como comédia.

A paranoia e os sinais sombrios da época ainda assim ficam como estofo: o que salta é a comédia, a fusão desses dois homens legais, violentos, atrapalhados.

O filme é rápido, serve-se da piada inusitada, também de situações absurdas. A intenção de Black é pegar o espectador sempre desprevenido, enquanto sinais paralelos não cansam de apontar ao típico filme policial que passa longe de ser.

March, detetive frustrado, beberrão, é contratado por uma senhora para encontrar sua sobrinha, atriz pornô. Healy, que ganha alguns trocados batendo em homens que se aproveitam de garotas, é contratado por outra atriz para “dar um jeito” em March. Dessa confusão brota a parceria entre eles, os tais “caras legais”.

O mais jovem e beberrão não esconde a pouca habilidade em lidar com situações violentas, mas tem algo a acrescentar com o cérebro. E com ele vem a filha pequena, dona dos “genes do pai”, como o próprio brinca, a certa altura.

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A menina está sempre ao lado dos homens, por acidente ou mesmo por curiosidade: é uma daquelas pequenas peças que fazem toda a diferença, pré-adolescente que não se envolve na comédia apenas para dizer besteiras ou figurar como vítima.

A menina aparece duas vezes, em dois momentos distintos, para lembrar Healy que não é certo matar homens em serviço. Em uma festa, ela assiste a um filme pornográfico ao lado de sua atriz para tentar levantar informações que levem à jovem desaparecida.

Vivida por Angourie Rice, a menina parece ser mais velha do que aparenta. O pai, ao contrário, vende-se como jovem, com roupas extravagantes. Desse bolo de personagens inesquecíveis sai um filme americano cômico acima da média.

O diretor e roteirista Black, autor da série Máquina Mortífera, é chegado às estranhas fusões entre homens e aventuras regadas à comédia. O principal acerto de Dois Caras Legais é não vender heróis concretos, mas seres de mentira, para não levar a sério. Frente a frente com o risco, em meio a tiros, eles simplesmente preferem fugir.

Curiosamente, e mesmo com evidente exagero, o filme extrai verdade com o clima da época, suas festas cheias de luzes e brilho, suas músicas tão lembradas, seus bandidos de ternos coloridos, com os filmes “experimentais” e comentários sobre abelhas – que quase passam despercebidos –, esses insetos que sempre alimentam pânico e paranoia.

(The Nice Guys, Shane Black, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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