As Maravilhas, de Alice Rohrwacher

Não é difícil saber muito sobre as personagens de As Maravilhas. São, sem segredos, brutas ou ternas. Entre elas, no filme de Alice Rohrwacher, está a jovem Gelsomina (Maria Alexandra Lungu). Tem o mesmo nome da mulher humilde, pequena, de A Estrada da Vida, de Fellini: nascida para sofrer nas mãos de um homem grande, bruto.

No filme realista e mágico de Rohrwacher, o bruto é o pai. Ele não deixa a filha escapar. Sua visão é estreita: naquela velha terra entre abelhas e caçadores não tão distantes, o melhor é ficar por ali, resistir, contra as “maravilhas” do mundo externo.

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Mas Gelsomina entenderá o contrário: aos poucos, será iluminada pela ideia de fugir, pela fantasia ligada a tudo o que pode estar além dos muros imaginários. Suas fantasias têm início quando, na companhia do pai e das irmãs mais jovens, assiste à gravação de um programa de tevê chamado No País das Maravilhas.

O pai, Wolfgang (Sam Louwyck), acredita que tudo não passa de bobagem: o verdadeiro mundo a se apegar está a alguns metros à frente, na terra, na família, nas colmeias de abelha que, aqui, sintetizam a família ou seu oposto.

Na verdade, sintetizam o desejo do pai, e se revelam a alienação contra qual Gelsomina deverá lutar para viver. Ela não pode terminar presa àquelas ações intermináveis, resumidas em trocar baldes, trabalho braçal, em impedimentos constantes.

A menina sonha, e por isso não pertence àquele meio. O olhar que recai nela é o do artista. Há algo deslumbrante aí: as pessoas só podem escapar, diz Rohrwacher, quando entendem a necessidade de criar mundos imaginários, ou quando se lançam ao sonho.

A realidade é chata, com abelhas, suas colmeias, atividades repetitivas. Ao mesmo tempo, toda essa chatice revela-se necessária: a família precisa trabalhar para viver, precisa se adaptar às novas leis, precisa encontrar meios para se aliviar.

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Quando o programa de televisão vai àquela região distante, com a intenção de descobrir as “maravilhas” de um universo supostamente perfeito, a jovem Gelsomina não pode deixar de sonhar. Ele olha à bela atriz e apresentadora do programa (Monica Bellucci) e automaticamente se deixa levar pelo sonho: vê a verdadeira princesa.

Contra a vontade do pai, a menina coloca a família na corrida pelo prêmio do programa. À frente, ele assistirá sua gravação, olhará à pequena televisão que serve à equipe técnica, a pequena caixa que o deixará enquadrado, sem palavras.

O que há por trás daquela “mágica” – o que talvez Gelsomina não possa entender por completo – revela apenas mais dor. É a interpretação, à qual a pequena protagonista não se deixa lançar. Aqui, as irmãs e um jovem menino adotado são sempre espontâneos, como os pais e os outros, o que surpreende os artistas e produtores da cidade grande.

Ao mesmo tempo em que revela o choque entre pai e filha, entre o bruto e a jovem sonhadora, As Maravilhas questiona o quanto a fábrica de sonhos da televisão pode ser enganosa, fria, falsa – e o quanto ela ainda pode despertar desejos.

Benéficos ou não, esses sonhos abrem portas, revelam a mudança, como mensagem no ouvido da jovem Gelsomina, que tenta tocar as luzes entre sombras, enquanto procura escapar daquele local afastado e opressor.

Nota: ★★★★☆

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