As 3 Máscaras de Eva, de Nunnally Johnson

A primeira personalidade de Eve (Joanne Woodward) é a da mulher reprimida. À época, nos anos 50, ela torna-se ideal ao homem conservador, dedicada a cuidar da família e sem voz ativa. Impossível não fazer essa leitura ao longo de As 3 Máscaras de Eva, de Nunnally Johnson – mesmo com toda carga psicológica.

As transformações da protagonista – ou variações entre “as” protagonistas – colocam a obra além das questões relativas à mente. Ganham relevo as questões sociais.

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Pois a segunda personalidade vem para suprimir a primeira: é a mulher livre, que dança com roupas extravagantes, que se encontra com diferentes homens. Suas atitudes enfurecem o marido, sem saber ao certo como lidar com ela.

Ralph (David Wayne) leva a mulher ao psiquiatra. Não demora a ser informado sobre o problema da múltipla personalidade. Ora é Eve White, com quem se casou; ora é Eve Black, que lhe prega peças, que não deixe de lhe surtir desejos – como aos outros.

O marido representa a hipocrisia social: Black, antes imprestável, torna-lhe fraco no momento em que resolve seduzi-lo. Ele, como os homens costumam agir, não resiste à dama desejável, à devassa. E quando ela resolve negá-lo, sua primeira ação é reivindicar a posição de marido, como se fosse o suficiente para tomá-la.

Mas, a essa altura, ela é Black, e nessa personalidade há espaço também para a negação. Em seu lado “negro”, a protagonista realiza suas vontades: doma quem antes a domava.

A obra de Johnson reproduz em imagens as transformações da mulher, ou seus estados: as personagens são lançadas a ambientes entre luzes e sombras, a espaços frios que servem como prisão para Eve, nos quais é encurralada, obrigada a se observar.

Seu psiquiatra é Curtis Luther, interpretado por Lee J. Cobb. Seus contornos levam a pensar mais em um policial, menos em um psiquiatra. Cobb é imponente. No mesmo ano, 1957, interpretou o algoz de 12 Homens e uma Sentença, de Sidney Lumet.

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Ao longo das sessões de tratamento com Eve, o psiquiatra vê nascer a terceira personalidade da personagem central. É Jane, representação do equilíbrio entre White e Black, máscara a sepultar as outras. Cada uma tem sua função e força própria.

Essa terceira face, dentro dos conceitos da psicologia, pode ser compreendida como o ego, demorando a ocupar seu espaço: nem reprimida demais como White nem liberta demais como Black. Em seu nascimento, sequer nome possui.

White, ao que parece, representa o superego, limitada às ordens dos outros. E Black, claro, é o id, a libertação, a explosão do desejo. A cada mudança, Woodward vai aos extremos, com uma interpretação que lhe valeu o Oscar de melhor atriz.

Os momentos finais são notáveis, e ela consegue confrontar os homens mesmo quando está na pele da frágil White. Volta à cena o passado, o momento em que, quando criança, foi levada a beijar a avó morta no caixão, à força, pela própria mãe. A situação deixou sequelas e caberá ao espectador fazer ligações entre causas e efeitos.

O pior em As 3 Máscaras de Eva é a tentativa de afirmar a realidade, com a narração que expõe os saltos no tempo, pontos relevantes na vida da mulher. Na abertura, por exemplo, o narrador apresenta-se: é o jornalista Alistair Cooke, incumbido de falar sobre esse caso real. O melhor está nas transformações de White em Black, ou mesmo no nascimento de Jane. São passagens que não escondem certa falsidade.

(The Three Faces of Eve, Nunnally Johnson, 1957)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Justiceiro, de Elia Kazan

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