La jaula de oro, de Diego Quemada-Díez

Os inimigos são passageiros: policiais truculentos, ladrões que aliciam mulheres, “coiotes” que trabalham para atravessar homens pela fronteira e atiradores de elite, armados a distância e contra qualquer um que tente entrar nos Estados Unidos.

São alguns dos problemas enfrentados pelos imigrantes que tentam chegar à “terra prometida” e, em La jaula de oro, sequer carregam demasiado relevo. São trombadas – ainda que fundamentais ao poderoso drama de Diego Quemada-Díez.

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Em busca do sonho, três jovens saem da Guatemala e seguem para a Califórnia. Suas histórias são fáceis de perceber: moravam na favela, não tinham nada a perder.

A obra é sobre esse caminho, sobre a fusão entre a natureza – nos incontáveis locais distantes, na mata, entre pequenas trilhas e montanhas – e o metal constante dos trens, ou dos locais abandonados nos quais as personagens escoram-se para descansar.

Dessa construção sai uma beleza estranha, seca, ora à base da distância e do conflito entre as jovens personagens, ora a partir da aproximação entre elas – o que resta para sobreviver aos dias na estrada e aos encontros indesejáveis.

Entre os três jovens há uma menina (Karen Martínez). Sua aparição dá o tom da metamorfose: eles não mudam apenas de lugar. A menina, sabendo dos problemas dessa viagem, corta os cabelos, esconde os seios, veste-se como homem. Brutaliza-se.

Em uma cena particular, ela beija um dos meninos, Juan (Brandon López), em uma noite de festa após um dia no corte da cana, entre a sujeira, um entre outros trabalhos que encaram no meio dessa viagem: dançam perdidos, desajeitados, e ela chega a beijar Juan com certa indiferença, como se verdadeiro sentimento não houvesse.

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Começam a viagem a três. No meio do caminho encontram um jovem índio (Rodolfo Domínguez) que não domina o espanhol. Tem dificuldade com a fala, enquanto Juan tem dificuldade em aceitar esse novo membro do grupo.

As transformações levadas à frente por Quemada-Díez impõem-se de forma gradual, sem pressa: o índio sabe como matar uma galinha, passa a flertar com Sara (Martínez). O que poderia dar vez a um triângulo amoroso novamente deixa espaço ao inesperado: a certa altura, a menina sai de cena e os garotos descobrem-se sozinhos.

A frieza, apesar da amizade, aumenta: rumo à “terra dos sonhos”, as personagens terminam como carne moída de um sistema desumano, de execuções a distância, de pessoas como mercadoria. Ao fim, é à carne que Juan, o sobrevivente, retorna.

Os pedaços de carne, os restos, são retirados do chão. O encerramento é frio. O garoto enfrenta o início de outro ciclo, agora com os olhos pregados no desconhecido: a neve cai entre a escuridão, em sua face. Ao que parece, Juan continua a sonhar.

O equilíbrio entre situações extremas e distanciamento confere grandeza a La jaula de oro. Por pequenas frestas, o espectador encontra personagens cheias de humanismo. Mesmo que tentem ocultá-lo, como é o caso de Juan, a certa altura transborda.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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