Sr. Ninguém, de Jaco Van Dormael

As diferentes linhas narrativas para a mesma vida são lançadas ao espectador pelo velho homem e personagem-título de Sr. Ninguém. Qual delas é a verdadeira? Nenhuma e todas. Esse é o enigma de que trata o filme: a escolha é do espectador.

Em seu primeiro longa-metragem, Um Homem com Duas Vidas, de 1991, Jaco Van Dormael já tratava de questão semelhante: um velho homem cheio de imaginação encontra uma saída à mediocridade de sua existência, quando se vê em um asilo.

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Ele conta a própria história, do dia em que foi trocado na maternidade aos problemas relacionados à vida que foi obrigado a viver: como passou a morar na casa do vizinho, não na casa de sua verdadeira família. Por consequência, tudo deu errado.

Em Sr. Ninguém a fórmula parece a mesma, ou pelo menos seu ponto de partida. O texto busca mais ousadia, com diferentes caminhos para uma mesma vida – enquanto seu autor, o velho homem com mais de 100 anos, o último mortal de uma terra de imortais, flerta com a morte, com sorriso cínico e provável blefe.

O futuro surge do lado de fora do hospital em que ele está internado: prédios gigantes e espelhados, robôs, grandes telas, pequenas câmeras que o vigiam, além do branco abundante. Um repórter consegue invadir o quarto e ouve suas histórias.

Como o espectador, é natural, o repórter fica confuso: deseja saber o que realmente levou a personagem àquele estágio. Ou, em outras palavras, deseja entender seu passado para entendê-lo. Mas a resposta pode estar em seu nome: ele é ninguém.

O nome tem a ver com seus vários passados. Ao evocar diferentes caminhos para uma mesma vida – com diferentes mulheres, diferentes mortes e até mesmo diferentes cortes de cabelo –, o protagonista desprende-se da identidade. Torna-se ninguém.

Como o próprio explica ao longo dessa avalanche de imagens, a vida é como um purê de batata com molho: após sua mistura, não é mais possível separar os elementos.

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O ponto em que isso fica evidente – e que muda para sempre a vida de Ninguém (Jared Leto) – é a separação dos pais. À beira da linha do trem, ele terá de escolher se segue viagem com a mãe ou se fica na estação e na companhia do pai.

O protagonista, Nemo (Ninguém em latim), tem sua vida dividida, ou passa a enxergar – do futuro, velho e decrépito – os caminhos pelos quais passou ou poderia ter passado. Com a mãe, apaixonar-se-á por uma garota. Com o pai, amará outra.

O texto ainda insiste em outras divisões, levando a novas trilhas dentro das diferentes histórias. E todas se interpõem, como cartas embaralhadas.

Sobre esses caminhos reina a consciente mistura de Dormael, também autor do roteiro: seu filme nasce para ser visto nessas confusões, feito de cortes rápidos, repleto de cacoetes típicos do cinema moderno, moldados para impressionar.

Ao tentar aprofundar a proposta de Um Homem com Duas Vidas e sem conseguir um terço da humanidade de O Oitavo Dia, o diretor traz apenas um quebra-cabeça a partir de vidas passadas. Diferente do astronauta decrépito de 2001: Uma Odisseia no Espaço, que assiste à aurora de uma nova vida, Ninguém continua preso ao passado.

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Ex-Machina: Instinto Artificial, de Alex Garland

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