O Retrato de Jennie, de William Dieterle

O artista recusa enxergar o fantasma da amada. Apaixonado, ele vaga pela rua, em dias frios, a procurá-la em todos os cantos. A moça, ou seu fantasma, aparece de vez em quando, pode estar no interior do quarto do companheiro, à espera.

Em uma cena curiosa de O Retrato de Jennie, o apaixonado pintor Eben Adams (Joseph Cotten) encontra a porta de seu apartamento aberta e, sabendo o que vai encontrar, corre ao interior e para a imagem da amada, que o espera.

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O visual do filme de William Dieterle, com produção de David O. Selznick, é todo moldado ao sonho: não se sabe o que é verdade e o que não é nessa Nova York de mentira, no contraste entre urbanização e luzes celestiais.

Elas anunciam a moça quando corre no parque, ou quando vem ao encontro dele nos jardins do convento: é a bela Jennifer Jones, a dar vez, como Jennie Appleton, ao mundo inalcançável dessa história de amor entre vivos e mortos.

Por outro lado, o filme vai além, ou parece ir: pode ser interpretado como a busca de um artista por uma imagem, ou pela inspiração. Busca a imagem da pessoa, o que ultrapassa a imagem das paisagens que não interessam a ninguém nem lhe rendem dinheiro.

Quando descobre Jennie (Jones), é a imagem que começa a ganhar forma. Não à toa, ela ganhará linhas aos poucos, distante, inalcançável entre a neve, ainda uma menina com seu jornal e a echarpe, peça que ora ou outra retorna, até o último encontro.

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E a obra funde as linhas da tela, do quadro do pintor, à imagem em movimento. É como se o filme nascesse da pintura, não o oposto. Inclui sonhos, delírios, não limita os encontros a um único tempo ou espaço. Tampouco ao preto e branco.

O Retrato de Jennie supõe a união entre amantes de tempos diferentes. Ele delira enquanto espera por ela, mais velha a cada aparição. Ou apenas pinta o quadro à medida que a encontra. Tudo isso para dizer que a arte faz-se aos poucos, com sentimentos, e atravessa o tempo: termina eternizada em um museu, com todas as cores ao fim.

Há quem reclame das personagens secundárias. O filme não seria tão bom sem elas, principalmente quando se pensa no olhar do pintor, em sua vida, ou na forma como todos esses “intrusos” de carne e osso estimulam-no a encontrar Jennie.

Isso pode ser notado na personagem de Ethel Barrymore, mulher mais velha, talvez a amante possível ao homem distante e em busca de sua própria musa – não fossem ambos de tempos diferentes, presos ao mesmo universo físico.

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Resta-lhe conferir empurrões no protagonista, depois tocado pelas incursões ao lado de alguém que talvez nunca tenha existido. O que pede a mulher mais velha é que encontre a forma, que pinte pessoas, ou apenas que busque a vida.

Jennie é sua ilusão inatingível, o que talvez explique – além da época em que o filme foi feito – uma relação apenas de abraços e gestos de carinho. O pintor nunca chegará à mulher, nunca consumará o amor eterno – não enquanto o filme durar. Mais do que sua chegada aos braços dela, ao fim, prefere a chegada do público ao quadro, à eternização da modelo pelo artista, à forma como ele sonhou-a.

Converte-se, em sua aventura, no velejador. Está no oceano, cercado por águas revoltas. Desprende-se do pintor de terno, do homem pacato. Embarca em nova experiência, sob os raios verdes e pela escadaria em espiral, infinita, o caminho à eternidade.

Nota: ★★★★☆

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