Tempo de Despertar, de Penny Marshall

O primeiro passo de Leonard Lowe à liberdade ocorre graças a um médico. Em estado aparentemente catatônico, ele receberá uma droga para acordar de seu sono. O segundo passo, em Tempo de Despertar, é mais difícil e terá de ser dado pelo próprio Leonard.

O caso dos pacientes “adormecidos” é uma saída interessante para o filme de Penny Marshall questionar o que é estar vivo. Ou mais: questionar se as pessoas de fora, aparentemente livres, não estariam, ao contrário dos pacientes, em sono profundo.

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A certa altura do drama, Leonard diz ao médico e amigo, interpretado por Robin Williams, que deseja declarar aos outros a maravilha que é estar vivo e livre. É compreensível: ele ficou em estado catatônico por décadas.

Não apenas Leonard, mas diversos pacientes. A história dessa mudança, desse acordar, começa com a chegada de Malcolm Sayer (Williams) ao hospital psiquiátrico. Ao estudar caso a caso, ele descobre o traço comum do problema de todos.

O filme consegue driblar questões médicas em excesso. Prefere o drama, ou as explicações que cabem ao leigo. Portanto, pensar em “sono” é mais interessante do que em qualquer explicação científica para tal – além de fornecer boa metáfora.

Apesar de secundário, Leonard é essencial para se compreender Malcolm, o protagonista. A cada afirmação aparentemente banal do paciente, o médico reage com certo estranhamento, com o sorriso contido que Williams domina como poucos.

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O cinema americano explorou em excesso a face desse cientista com bom coração. Não se deve duvidar de sua existência. É comum dizer que homens assim, inclinados à ciência, não possuem emoções. Mas Malcolm infelizmente passa do ponto. Restam pitadas de falsidade.

Desde o início, Tempo de Despertar reforça a ideia de quebrar padrões. Enquanto “dormem”, os pacientes reagem a estímulos, aos padrões de seu meio. Uma mulher internada só consegue caminhar até a janela da sala quando médico e a enfermeira pintam de preto partes do chão, como um tabuleiro de xadrez.

A paciente chega assim ao ponto desejado, à janela, com o olhar voltado à rua. Todos, entre eles Leonard, desejam sair do local. É o problema imposto na segunda parte da obra de Marshall: como será o choque dessas pessoas com o novo mundo moderno?

Ao despertarem do sono, tentam quebrar padrões. O maior será escapar dali, em um possível encontro entre mundos que não chega a se concretizar por completo.

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Em momento inspirado, Robert De Niro contorce-se para viver Leonard: ao despertar, seu controle sobre a personagem é tamanha que o espectador nunca duvida de dois seres em um. É o mesmo homem que antes “dormia”, com o olhar ao nada.

Entre suas andanças pelos corredores do hospital psiquiátrico, ele conhece uma garota que vai ao local para visitar o pai, vítima de derrame. Ela (Penelope Ann Miller) aproxima-se de Leonard. Nasce uma pequena história de amor, ou aproximação, na qual ele passa a ser alguém capaz de dar respostas a ela sobre o silêncio do pai.

Ao fim, outro padrão é quebrado: o médico, até então resistente aos flertes da enfermeira, corre ao estacionamento do hospital – não sem antes gritar da janela, em situação comum a filmes do tipo – para convidá-la a um café. Não foram apenas os pacientes que despertaram.

Nota: ★★★☆☆

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