Abbas Kiarostami (1940–2016)

A primeira impressão é de que nada ocorre nos filmes de Abbas Kiarostami. Em seus trabalhos, ele questiona a ideia do tempo e faz ver o que está além do quadro.

Close-Up (foto abaixo) tem uma cena exemplar: uma lata de aerossol rola pela rua enquanto a câmera acompanha seu movimento. Algo semelhante em O Vento Nos Levará, de 1999: uma maça rola pelo telhado e não escapa ao enquadramento em todo seu trajeto.

O cineasta explora o cotidiano, o diálogo às vezes banal, pequeno, o que fica aos cantos, o que serve aos bastidores – como Através das Oliveiras não deixa mentir.

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close-up

Em seus filmes, a vida brota em um pequeno espetáculo, da locomoção das personagens por áreas rurais e distantes. E permite, inclusive, embutir o mistério, como se vê em Cópia Fiel. O casal está unido há anos ou acaba de se conhecer?

A morte de Kiarostami deixa um vazio. Difícil preenchê-lo. Não chega a ser um típico filho do neorrealismo, tampouco lança mão de algumas técnicas depois convertidas em vícios com o cinema moderno, na rabeira das novas ondas dos anos 60.

Valoriza o plano, o movimento, as janelas pelas quais as personagens conversam e convidam outras a invadirem um universo, ou a descobri-las – com a calma do verdadeiro artesão. No encerramento de Um Alguém Apaixonado, a pedra quebra a janela, atinge a personagem central e o filme termina menos como uma indagação, mais como a certeza do rompimento à força.

O filme todo explora a dificuldade de se chegar ao outro lado, de se invadir. Impera a incomunicabilidade, os desencontros da voz, o difícil contato.

Gosto de Cereja, que valeu ao diretor a Palma de Ouro, é outro que utiliza a janela do veículo para o contato entre diferentes: por pequenas estradas, ou mesmo pela área urbana, um homem decide morrer e convida pessoas para enterrar seu corpo.

através das oliveiras

Grandes autores sempre parecem se repetir. Outra impressão deixada pelo mestre iraniano. Brotam, de novo, questionamentos de um motorista e seu filho, pelas estradas, em busca de notícias de um jovem ator que protagonizou Onde Fica a Casa de Meu Amigo? – o ponto de partida de A Vida e Nada Mais. Kiarostami dirigiu ambos.

Onde Fica é a primeira parte de uma trilogia. Um garoto, por pequenas ruas de uma pequena vila, procura a casa do amigo de classe, para quem precisa devolver seu caderno. A Vida e Nada Mais é sobre um diretor de cinema à procura do mesmo garoto do outro filme, o ator, em uma região devastada por um terremoto.

Em todos restam odisseias, viagens de descobrimento. O que há pelo caminho é o que importa. A última parte da trilogia, Através das Oliveiras (foto acima), conta o drama de um rapaz, outro ator, que tenta se aproximar da mulher amada. Sua única oportunidade ocorre durante a filmagem, pois ela interpreta sua companheira e tem de interagir com ele.

A ficção tem seus milagres, diz Kiarostami, enquanto ainda ficam detalhes dessa estranha relação – ou a relação fictícia, que só existe no filme dentro filme. Bastaria Através das Oliveiras para colocar o nome do cineasta entre os grandes. É sua obra-prima. Mas há muito mais. Sua filmografia é cheia de pequenos grandes momentos.

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