Peppermint Frappé, de Carlos Saura

Os tambores de Calanda, referência clara a Luis Buñuel, são inseridos em meio a uma história de obsessão, sobre um homem que tenta transformar uma mulher em outra, a morena fria em loura atraente – como em Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock.

Explicar o filme nesses termos, no entanto, é pouco para o mistério de Peppermint Frappé, de Carlos Saura. Trata-se de uma obra aberta, com um homem à beira da feminilidade e encontros em uma casa de campo regados à bebida que dá título ao filme.

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A vida sem compromissos de boa parte das personagens confronta o meticuloso Julián (José Luis López Vázquez). Obsessivo, ele está entre o trabalho como radiologista, a mesa de jogos e o pequeno altar religioso (amostra de sua subserviência). Alguém cuja quietude é quebrada com a chegada de uma mulher, a dama de Geraldine Chaplin, a loura e sofisticada Elena.

Ela também vive Ana, a enfermeira que trabalha com Julián. O homem fica entre ambas: entre a que gostaria de ter e a que poderá ter, mas que não representa seu desejo. O que ele faz, então, é transformar a enfermeira em Elena, casada com seu amigo Pablo (Alfredo Mayo) em segredo.

Em andanças, Julián diz ter visto Elena em Calanda, em uma Sexta-feira Santa na qual essa mulher batia freneticamente contra seu tambor e se divertia entre a multidão.

Como disse o próprio Buñuel em seu livro de memórias, Meu Último Suspiro, Calanda atravessa um dia todo com os tambores em pleno som. O resultado eram mãos machucadas, tambores ensanguentados. Para comprovar que Elena esteve nesse evento religioso, Julián atentar-se-á ao machucado na mão dela.

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O desejo de Saura, com os tambores e Calanda, é unir a obsessão de seu personagem à homenagem ao mestre Buñuel, com inúmeras figuras que circundam a mulher, entre elas Julián. Por isso, Peppermint Frappé tem início com recortes de revistas femininas, representação da busca da personagem central pela mulher ideal, à base de partes, nunca acabada.

Em Elena ele encontra um rascunho do que não pode ter: a mulher livre, nada a ver com seu jeito aprisionado, conservador às aparências. No fundo, deseja fazer sexo com ela, mesmo quando Pablo – o marido e bom amigo – está por perto, a apenas alguns cômodos.

Em Ana encontra seu molde: a mulher vazia, sem perspectivas, um pouco solitária. Não basta apenas torná-la loura e desejável como a outra. Necessário é lhe entregar o tambor.

Há um momento delirante no qual Elena e Pablo riem de Julián, quando ela saca um tambor e, pela ponte, bate contra o objeto em misto de desespero e graça. A imagem da mulher em Calanda – em preto e branco, a primeira que lhe vem à mente ao encontra-la – é uma ideia, desejo, sonho, não necessariamente algo real.

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A junção entre Elena, o tambor e os sons é a busca de Julián pela realização de seus desejos íntimos, no máximo do prazer.

Em Calanda, Buñuel afirmou ter ouvido, ainda um bebê de dois meses, os primeiros sons dos tambores. São sons de um passado perdido, de um desejo diluído em sonho. Não por acaso, Peppermint Frappé é definido como surrealista, com partes que rementem a Buñuel.

A bebida verde socializa e separa, alimenta e envenena. Na casa parte arrumada, parte destruída, Julián assiste ao prazer de Pablo e sofre em silêncio. Fotografa Elena enquanto ela dança entre folhas secas. A alegria é mero verniz frente ao clima frio. A bela mulher e o amigo dão vez a uma vida que renasce, ao prazer de Julián, enfim, em ter seu objeto de desejo: a mulher transformada em outra, a cópia que restou quando a original foi embora.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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