Marguerite, de Xavier Giannoli

São poucos os que não querem apenas o dinheiro de Marguerite. Quase todos fazem a protagonista acreditar em um talento inexistente: quando solta a voz, ela desafina a cada instante, ao mesmo tempo em que seus convidados são compelidos a aplaudi-la.

São falsos amigos, seres para preencher a plateia de sua grande casa, na qual uma desculpa serve para dar vez ao canto irritante, a detonar com os ouvidos: um encontro para levantar fundos aos órfãos da Primeira Guerra, no início dos anos 20.

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Em Marguerite, de Xavier Giannoli, o espectador descobre a protagonista ao acompanhar dois penetras na festa que dá abertura à obra, um poeta e um jornalista. A pompa e os bons modos pelo ambiente fazem pensar em uma grande cantora.

Logo a protagonista é desmontada: Marguerite, mulher sonhadora, até certo ponto capaz de desafiar o público em seu mundo de ilusões, surge como uma espécie de Norma Desmond presa ao seu universo de exageros, controlada pelo mordomo.

Em um momento que resume esse filme francês, o mesmo mordomo (Denis Mpunga) mostra à patroa um desenho com diversos rostos, todos sorrindo, em uma miniatura de teatro, como se aquele fosse sempre o público a esperá-la.

É desse teatro, desse mundo pequeno e falso, que nasce o filme de Giannoli: a ideia de que é possível encapsular uma pessoa, fazê-la acreditar nos falsos sorrisos, no falso universo moldado para servi-la – ao mesmo tempo perene demais.

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O filme, portanto, é movido pelo mordomo, o grandalhão Madelbos. É movido pelo homem em seu quarto escuro, local privado onde revela as fotos da patroa, no qual fabrica o mito – ainda que seja apenas para ela acreditar nele.

Mesmo ao centro, Marguerite é deslocada ao canto. Presente nas situações, privada da verdade, das maquinações feitas pela conversa dos outros. Na pele da excelente Catherine Frot, é ela quem dá vida à obra, estranho jogo de falsidades.

Seu drama é não conseguir ouvir a própria voz. Depende dos outros, cujas vozes só dizem o que ela deseja ouvir. O melhor capítulo do filme é o primeiro, o que traz um problema a Giannoli: como superar esse bom ato de abertura?

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É nessa festa aos órfãos da guerra que os olhares dos convidados se cruzam, no qual todas as personagens deixam-se ver como são – a começar pelos penetras, ou pela moça com pouco dinheiro contratada para cantar aos convidados.

Em um tempo para demolir certezas e exacerbar excentricidades, Marguerite servirá aos artistas de pequenos teatros, aos revolucionários feitos de grito e arte, aproveitadores, quando deixa que seu corpo, sob o tecido branco, reflita as imagens de uma guerra desastrada – como parecem ser todas – ao som da libertária “Marselhesa”.

O dinheiro de Marguerite comprou mais que um marido: possibilitou que todos fossem atores de seu teatro particular. Segundo Giannoli, o dinheiro não fez mais que sua função, ainda que a protagonista não reconhecesse a fundo seu poder.

Nota: ★★★★☆

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