O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston

O Tesouro de Sierra Madre começa com mendicância e termina com as gargalhadas de duas personagens. Começa e termina com miséria. Há, sim, um pouco de riqueza: o ouro retirado das pedras, das montanhas, daquele universo que ora ou outra ganha vida própria.

É a história de três homens sem muito que fazer e perder, apenas destinados a tentar ganhar algo. O trio vai ao México árido, selvagem, ao som de supostos tigres que nunca são vistos – ou ao som de suas próprias consciências.

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Antes de dormir, em um dos momentos-chave da obra-prima de John Huston, Fred C. Dobbs, vivido por Humphrey Bogart, fala sobre consciência e suas dores. Sem ela, está destinado a fazer o que invariavelmente irá fazer: trair os companheiros e levar todo ouro possível.

Dobbs é um homem amargo, sem passado ou futuro, perdido entre bancos e albergues fétidos no México ao qual é levado. A mendicância convive com ele. Andarilho, pede alguns trocados aos homens que encontra. Um deles – o próprio Huston, de terno branco e bons modos – sempre contribui com alguma moeda. Mas avisa: está na hora de Dobbs tomar o rumo certo e não pedir dinheiro sempre ao mesmo homem. Em círculos, o protagonista está destinado a fazer o mesmo, estar sempre nos mesmos lugares: é a vítima da pobreza que imobiliza.

Por que está no México, sem qualquer tostão no bolso e com roupas sujas e rasgadas? O mistério acerca de O Tesouro de Sierra Madre chega antes ao autor da obra na qual o filme baseia-se, um tal B. Traven que muitos dizem não ter existido.

Há quem diga que Huston conhecia o escritor, pois este teria aparecido, certo dia, no set de filmagem. Especulações à parte, Traven construiu uma história irônica sobre como a riqueza torna os homens mais pobres.

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Huston realiza aqui um de seus maiores filmes. E persegue a ideia de pobreza o tempo todo, também a da consciência, a fragilidade do homem e a natureza hostil. Uma mistura e tanto, mais tarde sintetizada na imagem de Dobbs, sozinho, com alguns burros, à beira de um rio quase seco e com ouro para carregar. Sozinho, ele está ainda mais sujo, vulnerável e, veja só, rico.

Com ele, às montanhas, seguem dois homens: Curtin (Tim Holt) e o velho inteligente e falador Howard (Walter Huston). Entre Dobbs e Curtin, entre a maldade e o homem aparentemente estreito, há o apaziguador, conhecedor do ouro e da montanha.

A dança de Howard, quando sinaliza à fortuna, é um dos momentos mágicos do cinema de tão inesperado e vívido. Curioso que Huston tenha escalado o próprio pai ao papel desse ser destemido e conhecedor do mundo, espécie de anjo da guarda.

Não à toa, quando Howard deixa os dois sozinhos, no momento em que iam embora das montanhas, instala-se o conflito: Dobbs passa a desconfiar de Curtin e fala em traição. Quer deixar o velho para trás, fugir com o ouro. Antes parceiros, agora os homens enxergam-se de verdade: mantêm certa distância, o ressentimento que dispensa palavras. As poucas são necessárias, ou ainda menos: com Bogart a soltar sua ira, Huston não precisa de muito mais.

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Dobbs é uma das grandes personagens da história do cinema. À primeira vista, surge como homem sem fé, sem esperanças, o protagonista que sobrou. O espectador talvez não acredite em sua maldade. Mais fácil culpar a ganância, o próprio ouro.

Bogart, com o papel, mantém-se à corda bamba, à forma do perdedor armado e violento. Dobbs traz tudo para si: o poder, o dinheiro, a corrupção e ainda tenta lutar, ao fim, pela riqueza que carrega quando confrontado pelos bandidos mexicanos. Quando ninguém parece freá-lo, o sorriso improvável, falso, faz lembrar que ainda há piores, de todos os tipos.

Importa mais, aos bandidos, as botas e os burros. A escória vive por ali. Mais tarde, Peckinpah retornaria a ela – aos próprios urubus – em Meu Ódio Será Sua Herança, também sobre americanos no México. O Tesouro de Sierra Madre, contudo, não chega a ser um típico faroeste. Huston chega à aventura por outros meios, sem a conhecida imagem do herói.

Não há bandidos, mas circunstâncias. Huston traça uma linha tênue entre a camaradagem e a traição, entre as verdadeiras montanhas e o estúdio: um mundo em que nada é como parece ou deveria ser, em que o homem é uma peça descartável e, por isso, melhor é sorrir ao fim. Gargalhadas ao vento, ao ouro e uma ode ao recomeço: Howard segue ao paraíso que encontrou e, no caso de Curtin, ao paraíso que deverá encontrar.

Nota: ★★★★★

Veja também:
À Sombra do Vulcão, de John Huston
O Homem Que Queria Ser Rei, de John Huston

2 comentários

  1. O filme é baseado num conto popular, de caráter exemplar, que corre nas águas da tradição oral de vários países. No catálogo internacional do conto popular, aparece como ATU 763 (Os homens que acham um tesouro acabam por matar-se) —, do qual Eça de Queirós dá uma versão literária, “O tesouro”, publicada em 1902. A sua presença, porém, é documentada nos Contos da Cantuária (1387), de Geoffrey Chaucer (The Pardoner’s Tale), no qual o sobrenatural procura explicar as consequências trágicas da ganância. No Brasil, o motivo aparecem contos geralmente chamados de “O laço do diabo”.

    O filme “O tesouro de Sierra Madre” certamente se inspira neste mesmo conto-tipo.

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