Kinatay, de Brillante Mendoza

Há filmes destinados a incomodar. Mesmo violentos, às vezes indigestos, ainda assim geram estranho fascínio. É o caso do perturbador Kinatay, do filipino Brillante Mendoza.

Antes do sangue, da violência, da noite, há o garoto. Chama-se Peping (Coco Martin). É curioso, às vezes até mesmo ingênuo. Antes da viagem, a família. Antes da noite, o dia. É como se Peping vivesse em dois mundos, em dois tempos, do sonho ao pesadelo.

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Em Kinatay, ele é um menino que termina em uma viagem pela noite, no interior de um veículo com um amigo e alguns homens estranhos, justamente na noite em que todos – menos ele – resolvem matar uma mulher que deve dinheiro ao chefe do grupo.

É o inferno para Peping, com nada a fazer senão olhar, obedecer, ser o bom moço que antes era, ao dia, quando se casava com Cecille (Mercedes Cabral). À noite, ele tenta ser o mesmo e deverá se transformar à força: atende ordens dos outros homens.

O trabalho é o pior possível: deverá buscar facas, sacos plásticos e vigiar a vítima – à cama, amarrada e ensanguentada – enquanto os outros fumam e conversam do lado de fora.

O assassino é natural. O jovem, o voyeur, é quem destoa, estraçalhado pelo olhar. Sim, há o choque do corpo em pedaços, da banalização, mas o choque maior está no menino ao qual a câmera ora ou outra retorna, fita, não deixa em paz um momento sequer.

kinatay

Cinema cru, livre, feito com coragem e poucos recursos, Kinatay abalou Cannes e deu o prêmio de direção a Mendoza – em um ano em que concorriam Marco Bellocchio e Alain Resnais. Barulho não faltou, pois sexo e violência estão sempre presentes no cinema do diretor.

As relações entre pessoas são duras e alguém sempre vê o que não deveria – como a criança na abertura de Serbis e a senhora que encontra o corpo do neto no poderoso Lola.

O olhar em Kinatay é central: vaga pela escuridão enquanto a câmera o persegue. Difícil não é assistir à violência, é estar na pele do menino. Detalhes ajudam a aumentar a crueldade, já que a vítima, a prostituta Madonna (Maria Isabel Lopez), carrega fotos do filho na bolsa. A vida à luz do dia, em família, golpeia Peping enquanto ainda vive o mesmo pesadelo – à noite.

No mesmo dia, Peping acordou cedo. Não um dia como qualquer outro, mas especial: Peping está prestes a se casar. Depois da cerimônia, ele circula com a família em uma van pela cidade, veículo semelhante àquele que, à noite, transportará a prostituta golpeada e depois morta.

Entre o dia e a noite, entre diferentes companhias e mundos, o menino – estudante de criminologia – passa por uma provação. Talvez o amadurecimento, certamente a transformação. Seus olhos clamam e doem, ocupam mais tempo na tela que o corpo de Madonna – primeiro inteiro, depois aos pedaços.

Quando está sozinho com a mulher, no quarto, Peping ameaça se mover, fazer algo, enquanto os outros sorriem do lado de fora. Trata-se de uma cilada ao espectador, que ainda tem esperanças e aguarda uma ação do menino impotente. Mas sua ação é minimizada: Peping está sem estar, enquanto tenta fugir com o mínimo movimento.

O fim da corrida chega com o amanhecer. No banheiro de uma lanchonete, Peping lava as mãos e observa sua aliança. Retorna à família que o espera: sua amostra de vida e seu lado inocente, enquanto o tempo – e a suposição do que ele pensa – golpeia o espectador.

Nota: ★★★★☆

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