A abertura de Anjos de Cara Suja

O diretor Michael Curtiz repete o mesmo movimento de câmera em sequências parecidas, que partem do mesmo ponto em plano geral: do alto de um prédio, a câmera faz um movimento panorâmico, ao mesmo tempo em que recua à parte inferior do cenário com utilização de grua e expõe outras características do ambiente.

É o início de Anjos de Cara Suja, sobre dois amigos marginais cujas vidas, na adolescência, tomam rumos opostos: um deles, interpretado por James Cagney, é detido pela polícia e se torna criminoso; o outro consegue fugir e no futuro se torna padre.

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A imagem abaixo é apresentada no primeiro minuto de filme. Ela servirá de contraponto a outra, mostrada mais tarde, com quase nove minutos de filme e na qual o diretor retorna ao mesmo ponto, porém no futuro, e apresenta algumas diferenças.

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À primeira vista elas parecem semelhantes. No entanto, alguns detalhes chamam a atenção, a começar pelos jornais. No passado, a manchete fala sobre a vitória do presidente Warren G. Harding, eleito no início da década de 20.

Em seguida, a câmera desprega-se do jornal e segue às sacadas, em um movimento que revela os prédios e a rua. Após um corte, o espectador é levado a outro movimento: a câmera eleva-se e chega aos dois garotos, que veem o mundo do alto – o que já anuncia o desejo de poder, sobretudo de Rocky (depois vivido por Cagney), figura dominante na imagem e também nos diálogos. Ainda antes, alguns detalhes devem observados: a rua está lotada, crianças dançam, há inúmeras toalhas nas várias sacadas.

Curtiz reproduz um ambiente um tanto desordenado, cheio de pessoas, antecipado por uma manchete que remete à política e, portanto, ao desejo de se estabelecer a ordem social – ainda que isso nem sempre seja visto na imagem.

Carroças, cavalos, vendedores de todos os tipos disputam espaço com um homem que toca música a partir de seu grande aparelho imóvel, enquanto crianças dançam.

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Antes de deixar o local, Rocky ainda terá tempo de flertar com uma garota, vivida pela bela Ann Sheridan na maturidade. Ela caminha com outras duas meninas, veste preto e está ao centro. Rocky puxa seu chapéu para baixo ao encará-la e, no futuro, ela fará o mesmo ao encontrá-lo, quando ele regressa ao bairro.

A chegada ao futuro oferece o mesmo bairro, o mesmo ponto de partida, e com as alterações do tempo. Começa, de novo, pelo jornal, que anuncia alguns feitos humanos. Ou seja, as novidades que este futuro impõe, o mundo à altura da mão – e que contrapõe a própria estrutura do filme, todo ambientado em um bairro.

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“Volta ao mundo em três dias, 19 horas, 17 minutos”, diz a manchete. A câmera segue movimento semelhante. Por outro lado, veem-se menos mulheres em seus afazeres, nas sacadas, menos toalhas. As carroças dão lugar aos carros. Não há mais a grande caixa de música (uma espécie de armário), mas sim um veículo com som embutido.

Chega certo progresso: ainda que tenha muitas pessoas, o ambiente aparenta estar mais ordenado, mais calmo. Outro corte leva do carro a um novo ponto de vista, que dá vez à igreja. É o ambiente em que Rocky, mais velho, volta a encontrar o amigo, agora padre.

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