Marujo Intrépido, de Victor Fleming

Do mar o menino Harvey retira seu principal aprendizado: é possível viver uma grande aventura sem inimigos, quando o conflito impõe-se pela natureza, devido à forma como aqueles homens ao seu lado, os marinheiros, escolheram viver.

Do novo amigo, Manuel, retira o que precisa para se completar, para crescer: percebe que é possível ser um grande homem sem grande esforço, sentir-se feliz, cantar, nos pontos perdidos do planeta, para ninguém ver. Apenas ser feliz.

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A mensagem de Marujo Intrépido, baseado no livro de Rudyard Kipling, parece ultrapassada. O garoto transformado em homem após essa viagem de descobrimento aprende que ser bom depende do esforço, do trabalho em equipe.

Enfim, é o trabalho que enobrece o homem, não a vida burguesa e isolada que o menino Harvey até então mantinha – sem mãe, com pai distante, sob as regras do poder ao lado, o qual parecia capaz de comprar tudo, e tudo permitir.

Quando viaja com o pai e cai no mar por acidente, Harvey é retirado por Manuel, que por coincidência – ou não, claro! – estava por ali, a remar naquele mesmo momento. Entre tantos pontos do mundo para estar, em meio ao oceano, estava por ali.

E leva o pequeno com ele ao navio pesqueiro em que trabalha, com outros homens sujos e falantes, em mar aberto. Manuel materializa um anjo de contornos simples, a quem nada cabe senão parecer de carne e osso, dono de soluções simples e palavras firmes.

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Antes conspirador, Harvey aprende a ser justo: no barco em que passa a viver durante alguns meses, antes que este regresse à terra tomado por peixes, precisará trabalhar para comer, precisará provar sua utilidade para compor esse grupo de marinheiros.

Não demora e Harvey vê-se apegado a Manuel no belo filme de Victor Fleming. Nasce uma amizade, não uma relação que se aproxima à de pai e filho. Mantêm-se companheiros, enquanto o menino aprende a trabalhar, a conquistar parte do oceano.

Marujo Intrépido deu a Spencer Tracy seu primeiro Oscar de melhor ator. A personagem de Manuel cabe-lhe à perfeição, o estrangeiro que fala a língua que Harvey não pode entender, à primeira vista, mas que depois entenderá sem esforço.

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A língua de Manuel é a do mundo, a da pele, a do homem experiente que pensa segundo as regras do grupo, levado à aventura sem perder a graça, disposto a aceitar a morte como parte de um plano inevitável, sem se arrepender.

E a obra de Fleming, a partir de Kipling, faz pensar que nada é por acaso. O esquematismo é essencial a filmes assim, com sua mensagem sobre amadurecimento, seu anjo e seu garoto dono de alguns tropeços, depois de algumas vitórias.

O menino é interpretado pelo angelical Freddie Bartholomew, jovem estrela da época, cujo olhar triste ao amigo, perto do fim, casa-se à forma mundana de Tracy. No barco, o menino aprende que os principais problemas estão entre os homens de seu interior, entre companheiros, e que os supostos oponentes, em outro barco, vivem distantes.

Nota: ★★★★☆

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