A falsa riqueza, a verdadeira pobreza (e o cinema de Coutinho)

O homem mais rico do planeta é um entre tantos brasileiros de origem simples. Vive em um país fictício com os contornos do Brasil, no qual se ambienta O Homem que Comprou o Mundo (foto abaixo), primeiro longa-metragem de Eduardo Coutinho.

Homem simples, que retorna da casa da namorada cheio de esperanças: seu único sonho, ao que parece, é desposá-la. Pouco mais do que isso parece atrapalhá-lo. Na farsa divertida de Coutinho, será logo atrapalhado, ou atropelado.

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o homem que comprou o mundo

O homem simples é José Guerra (Flávio Migliaccio), ganhador de uma bolada quase incalculável, na casa de trilhões, a partir de um cheque dado a ele por um indiano à beira da morte – clara referência a O Homem que Sabia Demais, de Hitchcock.

Em preto e branco, feito no auge da Ditadura Militar, o filme de Coutinho mostra a situação desse homem como peça do sistema. Não tão contundente como a crítica de Glauber Rocha e seu Terra em Transe ao país em tempos de golpe, essa brincadeira nem por isso deixa de expor feridas e questionar o público.

Em nada faz pensar o cinema futuro do Coutinho documentarista. Seria levado à posteridade, sem dúvida, o olhar político, vivo nessa fábula com referências às comédias malucas americanas, também à literatura futurista.

Há um pouco de tudo nessa história de falsa riqueza à qual o herói de O Homem que Comprou o Mundo é lançado, a começar pela clara ilusão do poder: mesmo rico, com capital para comprar o que quiser, o pobre José fica ainda mais imobilizado.

No delírio populista de que todos terão seu lugar no paraíso, às portas do prometido milagre econômico de seu tempo, cai com graça essa história sem jeito, visivelmente frágil, pequena, que não assume ser mais do que parece: uma farsa.

cabra marcado para morrer

O protagonista passa pelos banqueiros, lado a lado com os militares, e fica na mira das potências externas – em meio à Guerra Fria, claro –, ao passo que deve ser enclausurado para que sua “proteção” seja garantida. O poder vem atrelado à prisão.

À contramão dessa falsidade estão os documentários que Coutinho realizaria décadas depois, influenciados, sem dúvida, pela forma de construir a narrativa e conduzir diálogos em seus trabalhos para o Globo Repórter, na Rede Globo. É nessa época, de 1975 a 1984, que resolve retomar um projeto antigo, ficção interrompida pelo golpe de 64 e convertida em documentário: Cabra Marcado para Morrer (foto acima).

São dadas as bases para seu cinema futuro: mergulha, em filmes variados, no povo, em seus conflitos, em suas esperanças e misticismo, na verdadeira pobreza, como se vê nos extraordinários Santa Marta – Duas Semanas no Morro e Boca de Lixo (foto abaixo).

O primeiro é de 1987, o segundo de 1992. Ambos – captados em vídeo, com 50 minutos aproximadamente – expõem as fragilidades do Brasil não mais pela representação do homem simples cercado pelas figuras do poder, entre burgueses e militares.

Coutinho sequer precisa dessas figuras, da imagem dos culpados ou poderosos. Ao contrário, mergulha na miséria que se encerra em si mesma. Não se desprenderá dela em Boca de Lixo, sobre a população que vive em um lixão.

boca de lixo

Entre montanhas de entulhos e dejetos, o diretor e sua equipe buscam histórias de esquecidos. Não há mais novos ricos, palácios, espaços para futebol entre soldados ou qualquer saída à trama de espionagem, muito menos à comédia.

O lixão em que se passa o documentário mostra a convivência entre urubus e crianças. Algumas se assumem à câmera com facilidade, outras preferem esconder o rosto. Há quem confesse comer lixo, sem problemas, e aqueles que desconversam.

Na extrema miséria sobra espaço à esperança, um pouco de sonho: Coutinho alcança o milagre quando uma menina confessa o desejo de ser cantora, e chega a cantar música sertaneja, embalada pelo pequeno rádio branco, o objeto mais limpo por ali.

Essas pessoas que sobrevivem do lixo talvez nunca tenham visto uma televisão. Principalmente as crianças. Perto do fim, quando o realizador leva a televisão para a população assistir a si mesma na telinha (ação antes realizada em Cabra), o espectador rende-se aos rostos de estranheza e alegria das crianças.

Entre dois países – um falso e engraçado, outro verdadeiro e sem esperanças –, Coutinho faz pensar em dois tipos de cinema e seus propósitos. Na ficção escancarada, José ainda poderá fugir. Os miseráveis do lixo, por outro lado, não escapam de suas montanhas de sujeira repostas diariamente, presos ao movimento repetitivo.

Notas:
O Homem que Comprou o Mundo:
★★★☆☆
Boca de Lixo:
★★★★☆

Veja também:
Os documentários indicados ao Oscar 2016

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