Chatô, O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes

Algumas situações de Chatô, O Rei do Brasil vão muito além do país em que é ambientado. Em cena, o protagonista, Assis Chateaubriand, embriaga-se com o poder e o sexo oposto. São desejos centrais na vida da personagem de Marco Ricca.

Essas características levaram a imprensa a compará-lo com Cidadão Kane. Parece óbvio: como Chatô, Charles Foster Kane teve problemas com mulheres e ganhou o sorriso cínico do homem que acreditava no poder de criar fatos.

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chatô o rei do brasil

O poder, nesse caso, de levar à capa do jornal a notícia fabricada. Com ela, colocar parte do país a seus pés: pede as fotos e, com elas, fabrica a guerra – na frase de Kane.

Mas Chatô e Cidadão Kane – feitos de cartas embaralhadas, sem narrativa linear – encerram por aí as semelhanças. O primeiro é um filme sobre o Brasil, sobre o poder à brasileira, sobre um homem sem classe ou caráter, capaz de fazer o impensável.

Como um velho coronel, ele às vezes passa por cima das convenções. Cena que evidencia isso traz Chatô de calças abaixadas, sem gastar palavras para fazer sexo com a mulher que o atrai, a bela Vivi Sampaio (Andrea Beltrão).

Ela tem peso nessa história: é a mulher que passeia pelas salas do poder, manipuladora que apenas finge se deixar levar. O sexo com Chatô é passatempo, escapada pelas mesmas salas, para marcar terreno e, à sua maneira, ganhar poder.

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A forma como ela conquista é diferente. Chatô, o tal “rei do Brasil”, julgado em um programa de televisão mental e cujo espectador é apenas ele próprio, vê-se pregado à imagem dessa mulher. O gesto final, não por acaso, é dela: mais que seu sexo, Vivi entrega ao protagonista o canal em direção à vida, o ponto inicial da trajetória.

O filme de Guilherme Fontes apenas retira algumas situações do livro de Fernando Morais. Empresta dele o relevo, a personagem, alguns pontos. Por trás de Chatô há uma bela (ou não) amostra do Brasil, de seus tipos ora insuportáveis, ora belos demais.

Há os programas de televisão com seus resumos da nação, suas belas mulatas e cantores, seus beijos cinematográficos. Por ali, a qualquer momento o grande chefe pode aparecer e parar a cena, contar as últimas ao “país do futuro”.

Tudo é falsidade no filme de Fontes. Com sua forma consciente de trapacear, aos poucos se joga com a verdade: o que é mais curioso, aqui, reside nesse híbrido, nessa estranheza, ao passo que só se é verdadeiro quando falso, ao passo que não se tem – ainda bem! – a intenção de resumir a vida de seu protagonista em alguns minutos.

chatô

Sua trajetória conta parte dos vícios de seu país. A maneira carnavalizada como explode na tela – com seu facão, seu sorriso estranho, com toda sua distância – dá a ideia de seu poder, ao mesmo tempo de sua capacidade de causar repulsa.

Das personagens em cena, a principal é a pior, a típica brasileira. Resta então o desalento, a constatação do “gênio” ignorante, o clarividente que ajudou a moldar uma nação a seu modo, pelo jornal, pelo rádio e pela tela da televisão importada, que deve ter aprendido com outros – importação, de novo – e que certamente fez escola.

É sobre o Brasil, não sobre sua história, ou sobre parte dela. O que fica é o olhar do moribundo, parte da vida que retorna enquanto esse rei é julgado em um show de televisão. Termina como espetáculo, coerente com a personagem.

Nota: ★★★★☆

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