Vamos Dançar?, de Mark Sandrich

O dançarino vivido por Fred Astaire sequer precisa trombar ou descobrir a lourinha Ginger Rogers em Vamos Dançar?, de Mark Sandrich. A moça já está acoplada ao universo dele desde o início da obra – apenas não sabe disso.

O roteiro é conhecido: Astaire aproxima-se dela, surge alguma confusão, amigos ao lado apimentam encontros e desencontros e, ao fim, revela-se o óbvio: o casal ao centro está apaixonado. Acrescentadas ao bolo clássico estão grandes sequências de dança.

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Ela reluta em aceitá-lo. E a comédia faz-se nessa esteira de falsas incertezas, de maneirismos engraçados, quando a indústria era fundamental ao resultado positivo – enquanto Astaire e Rogers eram sempre os mesmos, como tantas vezes se viu.

Ainda assim, resta a questão: por que era tão bom? A explicação está ligada à música, à direção, às sequências de dança nas quais o realizador Sandrich explorava o espaço percorrido pelo casal de dançarinos, preferindo a extensão do plano ao corte contínuo.

Astaire é, de novo, o rapaz de terno impecável e de joelhos pela menina. Astaire começa a dançar sem aviso prévio, e ela tampouco avisa quando fará parte do jogo. Simplesmente se coloca a dançar em seguida. A música explica a paixão de ambos.

Pete Peters é também chamado de Petrov. Nesses dois nomes nasce sua enganação: é apenas mais uma das personagens do grande ator e dançarino. Rogers é Linda Keene, que decide fugir, a certa altura, para se casar com algum ricaço à disposição.

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A moça não espera para concluir, de barco, o trajeto de Paris a Nova York. É mais um filme de Astaire e Rogers que se coloca entre esses universos de suposta sofisticação, de cenários requintados, gente alegre, sonhos, personagens que exalam ingenuidade.

Enquanto o casal insiste em não se encontrar, ou apenas em se trombar conforme a ocasião, os coadjuvantes trabalham a todo vapor. Não poderia faltar o amigo gay de Astaire, Edward Everett Horton, desesperado com cada passo dado pelo companheiro.

E, como em outros musicais do casal, é um filme de fundo gay, mas hétero à frente, imbuído de imagens como a dos dois novos amigos que passam a noite bebendo (Horton entre eles), das moças que não se preocupavam com a roupa colante a revelar detalhes de corpo, dos gerentes de hotel afetados e vigilantes.

Como outros filmes de sua linhagem, é interessante, despreocupado, com um texto cheio de situações simples. O sofisticado fica por contra do casamento entre atores e músicas: com Astaire e Rogers cantando a deliciosa “Let’s Call The Whole Thing Off”.

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É na diferente maneira de dizer algumas palavras, na brincadeira que a música propõe, que o filme consegue expressar todo seu sentido. Apenas uma brincadeira sobre desacertos, com algumas crianças ao centro, no parque e com seus patins.

Ele flutua, ela acompanha. Ambos quase dividem o mesmo quarto. Apenas uma porta – cuja chave está em poder do funcionário afetado do hotel – separa os amantes. Em outro momento, estão em um carro, voltando de um falso casamento (depois convertido em verdadeiro), quando ele canta “They Can’t Take That Away from Me”.

Não são necessárias frases fáceis, juras de amor, quando canções de relevo deixam compreender a profundidade da obra. Com as músicas dos irmãos Ira e George Gershwin, impossível não aceitar o amor de Astaire e Rogers.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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