Chocolate, de Roschdy Zem

O gosto pelo jogo de dados aflora em Rafael Padilla antes do talento como palhaço. Atração de circo, a quem cabia apenas imitar um animal, ela precisará de um pouco mais do que sorte: será necessário provar talento como ator de teatro.

Padilla, interpretado por Omar Sy, sempre recorre ao jogo de dados quando está na pior. Talvez compense mais, nesses momentos de incerteza, lançar-se ao jogo, à ideia de que a sorte pode compensar qualquer um, negros ou brancos, a depender do acaso.

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Chocolate, de Roschdy Zem, refere-se ao protagonista, que ganha tal apelido quando se torna um palhaço, na França do final do século 19 – o primeiro negro a ocupar tal posição. Antes, no circo, era obrigado a viver o que se esperava do negro na época, o rascunho do selvagem que urrava para a multidão, de olhos arregalados.

Ainda assim, servirá, nos palcos, de saco de pancadas: para ele, como explica seu parceiro branco de rosto pintado, basta servir de vítima. O show de Chocolate e Footit (James Thierrée) baseia-se na relação de ambos, entre branco e negro.

O primeiro, sem máscara, incomoda-se em apenas ser esse “saco de pancadas” da comédia, artista que serve ao riso, ao que parece, apenas por estar ali, em um jogo no qual sempre lhe resta o papel esperado: o do negro, o do serviçal.

Chocolate não precisa de máscara: ao público da época, um negro no palco já era exótico o suficiente. Rompia alguns padrões. O negro podia ser aceito enquanto se limitava ao palhaço que apanhava, coadjuvante que fazia o público rir em excesso.

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Mas ao ousar ir além, passar do circo ao teatro e viver Otelo, de Shakespeare, no espaço considerado restrito à “grande arte”, estaria prestes a comprar o ódio alheio – ou a revelar o pior nos homens brancos do país da liberdade, igualdade e fraternidade.

O segundo, Footit, precisa de máscara, precisa pintar o rosto de branco: torna-se, como se espera, o palhaço original, primeiro, o palhaço que não funciona sem o outro.

O filme de Zem baseia-se quase todo na relação de ambos, na forma como Padilla prefere o universo sem máscaras, e como se revela com facilidade: deixa ver seus amores, suas bebedeiras, seus jogos e noites de gastança, seus bens.

O outro, escondido, quase nada deixa ver. Não tem amores, não gasta seu dinheiro. Uma sequência dá pistas sobre o que o faz se esconder: Footit é assediado por um homossexual e, desconcertado, foge de um bar a certa altura de Chocolate.

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Ele é apaixonado pelo parceiro negro, ainda que o filme de Zem não deixe o sentimento explícito até o encerramento. Como se vê na sequência em que foge de outro homem, Footit tem motivos para viver sob uma máscara, para ser outro.

No caso de Padilla, custa caro ser ele próprio: ao negar a máscara do negro feito palhaço para entreter, o ator compra briga com muitos, ou com a maioria. Não suporta a imagem do animal enjaulado para servir de atração. Aos poucos ganha consciência, revolta-se.

O diretor dá voltas esperadas e, mais de uma vez, sacrifica o realismo em nome da mensagem. Por isso, nada está fora do lugar, com a narrativa ajustada aos mínimos detalhes, sem um parco momento em que o homem explica-se pelo banal.

O terreno é o da narrativa clássica, do deslumbramento ao apogeu, da dor à descoberta da consciência. No caso de Padilla, o caminho é feito de dificuldades, de tropeços, para conseguir usar seu verdadeiro nome, não o apelido que remete à comédia.

Nota: ★★★☆☆

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