O Clube, de Pablo Larraín

Os padres não demoram a confessar seus pecados. Tal confissão é sempre estranha, sem jeito, como se os mesmos homens não pudessem revelar seus problemas: há sempre a necessidade de manter as aparências, a ordem.

É dessa necessidade que trata O Clube, de Pablo Larraín. A base dessa ordem dar-se-á às escuras, em uma região sem sol, à beira-mar, em casa grande o suficiente para os quatro padres e a empregada, pequena ao olhar do espectador.

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Os líderes religiosos reclusos cometeram abusos. São pedófilos. Foram colocados ali para serem esquecidos por suas comunidades, a mando da Igreja, sem que pagassem por seus crimes. São “esquecidos” enquanto tentam conviver com o passado.

Larraín não deixa ver mais que múmias, seres decrépitos e estranhos. Apenas um deles, Vidal (Alfredo Castro), aproxima-se do espectador e deixa enxergar (ou quase) seus pecados – e, por isso mesmo, parece mais humano e palpável.

Há outra explicação para essa proximidade: em um diálogo revelador com o padre jovem enviado à casa de repouso, ou a esse clube de padres pedófilos, ele diz que seu cão de estimação humaniza-o, e oferece assim uma resposta elegante ao público.

Difícil, portanto, a tarefa do espectador: entender o que esses homens são nessa vida reclusa. E, por isso, não resta muito mais que a aparência de um universo à beira do fim, no qual a câmera não se limita à imagem para tudo revelar.

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Ao contrário, escurece, perde o contato com o real em seu granular constante, nesse meio borrado pela indecisão, pela paralisia, pela dificuldade de ver ações concretas. É de mal-estar, de perda, que fala esse trabalho extraordinário e corajoso.

A pouca ação, ou trama a ser desenvolvida, nasce com o suicídio de um padre, o quinto que chega para integrar o clube. Com esse novo integrante vem uma de suas vítimas, um homem com aparentes problemas mentais que, na parte externa da casa, grita os pecados do “santo homem” agora colocado em quarentena.

Suas palavras são verdadeiras: contam detalhes sobre os abusos, sobre o tempo em que era criança, com detalhes anatômicos e, mais ainda, o drama de quem não conseguiu seguir em frente: continuou à espreita do abusador, como um espírito sem caminho.

O padre, ainda nesse início perturbador, sucumbe às palavras da vítima: toma uma arma dada por outro padre, vai ao lado de fora da casa, suicida-se com um tiro na cabeça. Os outros logo se encarregam de contar outra versão para a história.

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Ao longo do filme, Larraín utiliza dois recursos narrativos interessantes para o espectador entender o meio e suas personagens: o primeiro é a inclusão de pequenas situações, mais de uma vez, em que os padres estão separados, em seus afazeres diários; o segundo é a confissão, em entrevistas, ao jovem padre que chega ao local.

A bela construção permite que todas essas pequenas situações e histórias passadas ajudem a entender o drama do local em que nada parece ocorrer – à exceção do suicídio da abertura e do espancamento do inocente, ao fim.

Nessa história de busca pela ordem, as personagens sempre deixam ver, aos cantos, o desejo reprimido, a dificuldade de se assumir. Larraín trabalha com esconderijos, com ofuscamento, nunca com a evidência. São os restos de uma instituição arcaica.

Nota: ★★★★☆

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