Senhorita Oyu, de Kenji Mizoguchi

A história de amor de Senhorita Oyu é feita de complicações. Um homem apaixona-se por uma mulher e, para estar perto dela, casa-se com sua cunhada. Esta sabe do amor dele pela outra e tem seus motivos para aceitá-lo. Sacrifica-se em nome dos outros.

O que causa dúvida não está ligado à personagem-título, amada do protagonista, mas à outra mulher, Shizu (Nobuko Otowa), que aceita viver um casamento de aparências para unir a cunhada ao marido e estar assim perto de ambos, como irmã mais nova.

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O filme de Kenji Mizoguchi conta com poucos gestos de amor. É uma história sobre a negação dos sentimentos, sobre retração: a cada passo dado por uma das personagens, com a intenção de revelar algo, alguém foge, esconde-se, simplesmente não quer falar.

E quem nega é quase sempre o homem, Shinnosuke (Yûji Hori), de jeito nada autoritário. É alguém criado sem os pais, que vê na senhorita Oyu (Kinuyo Tanaka), sua amada, as formas da própria mãe. Apaixona-se por ela logo no primeiro encontro.

No início, ele faz confusão: acredita que Oyu é sua pretendente. É corrigido pela tia, que promove encontros do sobrinho com mulheres com a intenção de casá-lo. O homem é fiel aos próprios sentimentos: não consegue mais esquecer Oyu.

À frente, disposto a insistir, casa-se com a bela Shizu. A intenção é estar perto da outra, sem marido e, mais tarde, sem filho. O filme de Mizoguchi é repleto de reviravoltas dramáticas, com o destino sempre a dar um novo golpe.

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Como nos melodramas americanos, o espectador é capaz de antecipar algumas dessas reviravoltas. No entanto, o que diferenciam as obras do mestre japonês é a atitude das personagens quando confrontadas por situações trágicas ou novas revelações.

No caso de Senhorita Oyu, o mais curioso reserva-se ao casal, não à personagem-título. O tom pesado cabe ao fundo, não à frente: Shinnosuke e Shizu aceitam viver um casamento de mentira, sem grandes discussões, com sofrimentos contidos.

Não significa que Oyu, o centro, será sempre como se espera, ou como era no início dessa história: aos poucos, o olhar do homem passa dela à outra, à sua mulher, àquela que serviria apenas de ponte ao aparente amor impossível. Oyu fica mais distante.

O cenário também muda: mais tarde, ele e Shizu mudam-se para a cidade grande. De homem apaixonado pela imagem da própria mãe, em formação, passa ao homem maduro, marcado pela vida na cidade. Logo cedo, é direto: diz que precisa trabalhar.

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Belo filme sobre o que não se diz, no qual o homem, então formado, descobre que ama a mulher com quem casou, mas talvez seja tarde para declarar sentimentos.

O diretor apresenta dois mundos diferentes. No encerramento, o universo já não é o do antigo e belo Japão. Ao fundo, fábricas e um trem em movimento. É possível assim se situar no tempo, perceber que essas pessoas tocam o plano real, a vida real.

Ao que parece, essa vida bruta – um pouco miserável – não dá mais espaço aos jogos de sentimentos, aos amores guardados. A parte final reserva espaço ao homem em busca de lugar algum, longe da sociedade, sem chance para recomeçar.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A saga Lady Snowblood, de Toshiya Fujita

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