Cavalgada, de Frank Lloyd

Como a Jane Marryot de Cavalgada, Diana Wynyard sofre o tempo todo. Sofre quando o marido vai à guerra, no continente africano, no início, e mais tarde quando o filho segue às trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

Ao fim do conflito, em 1918, ela está entre a multidão em festa nesse filme luxuoso de Frank Lloyd. Mesmo triste com uma perda familiar, ainda consegue agitar a mão, como se restassem motivos para comemorar a vitória de seu país, a Inglaterra.

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A nação vem antes da família. Os fatos históricos, por consequência, cercam as personagens. Os seres em cena são apenas peças de um drama sem muita profundidade: compõem um quadro desajeitado, pouco humano, como coadjuvantes.

Ainda o choro de Jane, da mãe desconsolada: sem situações realmente convincentes, essa dor não será capaz de agarrar o público. Cavalgada, vencedor do Oscar de melhor filme, prioriza o material histórico (ainda que nem sempre convincente) com pinceladas de vida, com saltos no tempo que colocam as personagens em situações conhecidas.

Vai de 1899 a 1933. Passa pela Guerra dos Boers, pela morte da rainha Vitória, pelo naufrágio do Titanic e pela Primeira Guerra. Jane vive com o marido Robert (Clive Brook) e os filhos. Seu mordomo (Herbert Mundin) também luta na guerra. Ao retornar, deixa a grande casa para abrir um bar com a mulher (Una O’Connor).

Os criados têm uma filha, Fanny (Ursula Jeans), que dança entre as pessoas, em rua abarrotada, em festa, quando seu pai, embriagado, é atropelado pela carruagem. Seu jeito não deixa mentir: mais tarde ela tornar-se-á cantora e dançarina.

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As duas famílias, de diferentes classes, voltam a se cruzar: o filho de Jane, Joe (Frank Lawton), apaixona-se por Fanny. Encontram-se quando o jovem fardado prepara-se para lutar na Primeira Guerra, à medida que a menina caminha para o sucesso.

Talvez ela não seja a nora desejada por Jane. E talvez não haja tempo para que esse amor seja prolongado, devido ao tempo conflituoso. As voltas do drama são conhecidas, há sempre algumas coincidências, quase tudo é previsível.

O excesso de personagens não deixa o filme parecer pesado, e talvez explique a dificuldade de penetrar as personagens, sobretudo Jane. É a mãe que sofre ao menor som do lado de fora: chora, reclama do tempo de guerra, pede paz.

A interpretação de Wynyard é artificial. Outras, de atores inclinados à comédia, como Mundin e O’Connor, são superiores, mas não ajudam muito quando precisam migrar ao drama. A mescla de gêneros é semelhante à de pessoas, com até certa liberdade.

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Ao fim da Primeira Guerra, o mundo não é o sonhado pelos vitoriosos: a câmera passa pelas festas regadas ao jazz, aos decotes femininos (permitidos nesse período anterior ao Código Hays), à visível aproximação entre pessoas do mesmo sexo – o que não atrai a recatada Jane, que afirma preferir passear no zoológico.

Lloyd visita tipos variados, humanos, ainda assim distantes. São maiores que a História, que as nações, algo que o diretor parece não enxergar. Os melhores momentos ocorrem em fusões de imagens, para representar a orgia do mundo: nas imagens dos soldados abatidos mescladas à música, no espetáculo de morte.

A cavalgada do título é a da História: década a década, o espectador vê homens em seus cavalos, pela floresta, a representar a passagem do tempo, à qual o conflito é inevitável. Mesmo com tanta morte, o fim soa irônico: Jane e Robert brindam à vida.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Grande Motim, de Frank Lloyd

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