Um Assunto de Mulheres, de Claude Chabrol

O mundo é mais masculino em tempos de guerra. Homens e mulheres desempenham papéis diferentes. Os homens no campo de batalha, as mulheres em casa, à espera de notícias. É o que vem à mente quando se pensa nesses lados.

Às mulheres que ficam resta o que homens não fazem. Na guerra ou fora dela, elas vivem em um universo à parte, ao qual eles não têm qualquer acesso. Para algumas, o aborto, como outras práticas proibidas, torna-se uma necessidade.

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Em Um Assunto de Mulheres, de Claude Chabrol, a protagonista é Marie (Isabelle Huppert), sozinha com dois filhos quando o marido vai à guerra. Certo dia, ao voltar para casa, ela depara-se com as botas sujas do homem, sinal de seu retorno.

Segundo ela, os derrotados são como “touros” – o que se aplica até mesmo àqueles que não perderam a guerra. Ou talvez sejam animais raivosos, opostos às mulheres que ela cuida e conhece, damas que lhe oferecem outro universo.

Contra a guerra, Chabrol impõe delicadeza. Não significa encontrar sempre mulheres bondosas ou mães exemplares. O filme expõe a conexão entre elas, para além do prazer sexual: reproduz o entendimento que pertence apenas ao sexo feminino.

Quando uma judia é levada pelos alemães, ainda no início, Marie é vista sozinha, ao pé da escada, com lágrimas nos olhos. Choro tão sincero quanto os gestos bruscos contra o filho, porque o ódio em relação aos homens talvez seja levado a todos.

De tempos em tempos, Marie ajuda outras mulheres: introduz em seus corpos um objeto de borracha, fazendo com que abortem. A vizinha Ginette (Marie Bunel) é vista sangrando, sofrendo, e depois feliz na porta da casa da amiga, após o aborto.

As mulheres dominam o filme de Chabrol. Contra o moralismo barato, ou simplesmente para ter outras mulheres à volta, Marie será vista andando com a mais bela de todas, a prostituta Lucie (Marie Trintignant), ou Lulu – possível referência à musa Louise Brooks de A Caixa de Pandora, mulher que destruía os homens com sua sedução.

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O filme mescla com ironia uma personagem que faz abortos ao período do colaboracionismo francês. Tempo em que algumas crianças sequer chegavam a nascer. Caso contrário, estariam sob um regime autoritário, sob as forças do nazismo.

Uma das mães queixa-se: diz que a criança que não nascerá seria filha de um alemão, que os alemães têm feito muitos filhos nela. Mais do que cruel, Chabrol é irônico. Sua Marie escapa da vida moldada à obediência. Prefere pecar e ser livre.

Seu marido, típico impotente interpretado por François Cluzet, não a perdoa: ele não pode matá-la, tampouco pode fazer sexo com a nova criada da casa, a pedido da própria mulher. Seu sentimento não é outro senão o do macho traído, não necessariamente o macho que ama. Ele precisa provar força.

A parte final traz Marie encarcerada, sem as belas roupas compradas com o dinheiro dos abortos ou do pequeno quarto que alugava para a amiga prostituta. No tribunal, ela encara um bando de homens de fala dura, séria, como se fosse possível a justiça em uma situação como aquela, quando todos – encarcerados ou não – estavam presos.

(Une affaire de femmes, Claude Chabrol, 1988)

Nota: ★★★★☆

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