A fratura do Estado no cinema de Pablo Trapero

A polícia, o sistema carcerário, a saúde e a habitação têm suas fragilidades escancaradas no cinema de Pablo Trapero. Suas histórias correm em uma Argentina desagradável, regada à violência, em filmes que mais deixam ver vítimas do que justos ou injustos.

Ou, em outro caso, heróis ou vilões – ausentes na obra de Trapero. Melhor exemplo está em Do Outro Lado da Lei (abaixo), em Zapa (Jorge Román), chaveiro traído por um amigo e que foge de uma pequena cidade para se tornar policial em Buenos Aires.

do outro lado da lei2

Ele não se comunica. Tem jeito cansado. Torna-se, pelo silêncio, talvez o funcionário padrão: é o pequeno caipira, de local distante, domesticado segundo o desejo de seu comandante, o delegado, mais tarde revelado um corrupto.

Para Trapero, e diferente de outras personagens dos filmes seguintes, Zapa é ao mesmo tempo o mais silencioso e distante, o mais difícil de entender, vítima maior.

Chaveiro, com poder de abrir cofres e fechaduras, ele continuará aprisionado. O mesmo pode ser visto na protagonista de Leonera, Julia (Martina Gusman), cujo filho nasce na prisão. Em pequenos espaços tão sujos quanto os do filme anterior, Trapero mostra essa mulher aprisionada à condição de mãe, à sua natureza incontrolável.

Em Elefante Branco (abaixo), de 2012, há nova prisão, dessa vez à natureza masculina. O padre Nicolás (Jérémie Renier), atormentado por um drama passado, vai para a Argentina trabalhar com a comunidade pobre de uma favela e termina atraído por uma assistente social (de novo interpretada por Gusman, mulher de Trapero desde 2000).

elefante branco

É de prisões do corpo que fala o cineasta. E, por consequência, seus filmes sempre levam a jornadas físicas, a poucas explicações. O Zapa de Do Outro Lado da Lei não esboça esforço para dizer quem é, ou para ser alguém. A protagonista de Leonera quase não tem sua história explicada. Ao espectador, isso apenas ocorre quando ela conversa com o advogado, com a mãe e, mais tarde, com um dos companheiros envolvidos no mesmo crime que ela.

Os filmes preferem trombadas ou o olhar distante. Com Zapa, há o curioso, que sabe quase nada, e que observa os outros policiais pela janela, enquanto abordam alguns rapazes que se agitam em uma moto, contra os quais dão alguns disparos.

Em seguida, o espectador vê Zapa passar a mão sobre a cabeça de um dos homens abordados, deitado no asfalto; ao fundo estão os corpos dos outros, baleados pelos colegas policiais. A polícia vive em um espaço precário, sujo, com seus agentes envolvidos com corrupção, com pessoas tentando resolver problemas, aos gritos.

abutres

A confusão é presente no conflito entre pobres e autoridades. A escuridão e a forma como esses lados comunicam-se fazem pensar na ausência do Estado: as personagens perambulam por ambientes degradantes, ao mesmo tempo vítimas e viciadas.

Abutres, de 2010, é sobre um advogado que vive de processos de indenização de pessoas que sofreram acidentes (acima). Ele vive dessa carniça, ao mesmo tempo em posição estranha, à qual o espectador não poderá apenas lançar pedras ou entender.

Há mais em jogo. O protagonista, Sosa (Ricardo Darín), é de novo indefinível, corrupto, sem dúvida, e amável em outras passagens. Pelos hospitais, onde estão seus clientes, ele esbarra em uma médica (Gusman) que precisa se drogar para suportar a rotina.

leonera2

Os dramas à frente não escondem o fundo: o carro de polícia que precisa ser empurrado para funcionar em Do Outro Lado da Lei, o clausura em que vivem as crianças em Leonera (acima), a briga entre gangues dentro das salas de atendimento médico do hospital em Abutres, os intermináveis corredores da favela em Elefante Branco.

Se por um lado o Estado é incapaz de dar a estrutura desejada a essas pessoas, por outro não deixa de estar presente: no caso de Leonera, suas personagens estão sempre cercadas por gestos hostis dos oficiais, constantemente vigiadas pelos próprios.

As relações são cortantes no cinema de Trapero. Tais obras não se curvam à reconciliação. O fim, em alguns casos, deixa perguntas, pode ser aberto. A continuidade não alivia. O espectador sai da jornada ainda de olho na caminhada de Zapa, ou de Julia, ainda plugado em um universo que pouco ou nada mudou.

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