Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock

A imagem de Berlim Oriental não é nada assustadora: fora do avião, os passageiros americanos encontram um bando agitado de fotógrafos, como na sequência da chegada de Anita Ekberg à Itália, em A Doce Vida, de Federico Fellini.

Tais fotógrafos, em Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock, não estão ali para fotografar uma celebridade ou alguém do universo das artes, como a bailarina que viaja no mesmo avião e se sente excluída ao não atrair os flashes das câmeras.

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O centro das atenções é o jovem cientista Michael Armstrong (Paul Newman), americano que acaba de declarar apoio aos comunistas para fazer valer o “progresso” da ciência em um mundo frio e dividido. Sem tocar diretamente na política, Hitchcock deixa que corra ao fundo. Convive com o clima, com o medo.

É o medo de ser reconhecido, o medo de ser visto, de não ser alguém da massa que aprendeu a entregar companheiros e vigiar a todos – à simples convocação.

O mundo do outro lado do muro, na Alemanha Oriental, não deixa de carregar, para Hitchcock, a visão do ocidental capitalista, crente no poder de sua ideologia, e, ainda mais, crente nas características indissociáveis do inimigo.

Não é preciso se esforçar, aqui, para mostrar a que lado do jogo se pertence. Basta o olhar ao outro, a vigia, o movimento, ao passo que público não demora a entender quem é quem nessa luta entre nações, o que se aplica ao herói, Michael.

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A personagem de Newman não se vendeu aos comunistas. Infiltrada, foi para o outro lado para tentar descobrir a chave de uma importante fórmula e trazê-la de volta aos Estados Unidos. O problema é que ele não contava com a companhia da namorada, Sarah Sherman (Julie Andrews), descontente ao ser deixada para trás.

Diferente do público, ela demora um pouco para descobrir que o amado não é um traidor. E se mantem como típica atrevida dos filmes de Hitchcock, a conduzir o público, a se deixar levar pela emoção – contraponto ao universo frio.

Não é o melhor item de Cortina Rasgada, mas é necessário. Personagens como Sarah injetam emoção, são inesperadas, impedem que o filme se renda ao político; com ela, resta a história de amor, a escapada que leva ao inesperado beijo.

O diretor não perde de vista a importância do relacionamento, ao passo que a busca pela fórmula nas mãos do inimigo – também o encontro com homens nada simpáticos, com suas salas frias – é apenas desculpa para contar essa história de amor.

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Constrói-se assim um filme para todos os gostos, de ações nem sempre naturais, e com sequências de suspense que não raras vezes desafiam a paciência do espectador, justamente para martirizá-lo, a fazê-lo sentir o “lado comunista”.

A certa altura, quando Michael encontra-se com um agente infiltrado, ele termina na casa de uma mulher e é encurralado pelo vilão. O resultado é uma briga e uma das mortes mais poderosas de um filme de Hitchcock: cada corte e cada movimento revelam, de novo, a paciência do diretor em compor o mal.

Michael não deseja ser notado. Incomoda-se com câmeras e qualquer olhar à volta. Quando é encontrado, ao fim, tenta escapar em meio a um teatro lotado, sua porta de fuga, em nova sequência impressionante – justamente em um teatro.

A massa desesperada quase separa o casal. A essa altura, fórmulas secretas do mundo comunista não importam mais. São efeitos ao fundo, que movem a história e, ainda assim, valem menos. O que importa é a emoção, a união de Michael e Sarah.

Nota: ★★★★☆

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